sábado, 30 de agosto de 2008


Primeira vez que me deparo com esta maravilha.
01.05.2008
Eu sou o problema
Alcina Magalhães
Eu sei que eu sou o problema. Je sais. E que faço com o que sei? Je ne sais pas. Essa é a questão e fico noites e noites sem dormir. A coruja crocita lá fora, leio Platão em busca de respostas e termino me fazendo mais perguntas. Vivo socrateando. Termino em aporias as perguntas que me faço e isso é uma contradição porque eu sou a única que poderia ter as respostas que não me dou, as respostas que deveriam ser encontradas dentro de mim. Très bien! Je sais. O kairós é a causa de tudo. Quero relacionamentos vivos em que posso ser eu mesma e não me policiar o tempo todo para não melindrar sentimentos de inferioridade, sentimentos de baixa auto-estima. Estarei sendo egoísta? Vejo as pessoas sendo egoístas e apenas olhando para seus umbigos, colocando seus problemas, seus interesses, em primeiro lugar. Moi aussi? Disponho-me a ajudar as pessoas e elas não querem ajuda. Coloco-me à disposição para consolá-las nos infortúnios da vida e elas não se manifestam. Eu sei que somos limitados por natureza, propensos ao erro – vejo o sol girando em torno da terra e isto é uma verdade para meus olhos, porém a ciência me prova que meus sentidos me enganam. Eu sei que a biologia é a melhor explicação para a necessidade de morrermos – afinal, como viveríamos em espaços contíguos que teríamos de dividir com todos os outros imortais? Je sais et j’accepte ça. A morte não me incomoda porque meu maior problema se chama AMIZADE. É verdade. Parece assunto bobo, assunto de pessoas carentes, mas é a pura verdade. A cada dia me convenço que as pessoas não aprenderam a ser amigas. Ou será que EU é que sou intolerante com as pessoas, com a limitação delas, e fico com a expectativa que não se concretiza? Je ne sais pas. Isto me incomoda porque quero saber, quero usar minha razão até onde sei que posso, reconheço que ela tem limites, afinal como descobrir se deus existe? Faz parte do mistério do mundo e o big bang e Darwin me ajudam a entender um pouco mais e aceitar que temos limite nessa sede de conhecimento. É o tipo de assunto que ou se tem fé ou não porque, RACIONALMENTE, não se pode saber nada a respeito e EU preciso me guiar pela razão para saber algo. E isto eu sei: eu sou o problema; esse desejo de agir bem e querer que o outro também aja bem para comigo; esse desejo de me doar e querer que o outro também se doe. Apenas receber é fácil e cômodo; o difícil é se doar - mas tem de aprender. É assim que eu vejo as coisas, é assim que eu penso, é assim que eu quero que seja, e o outro? O que ele pensa a respeito? Afinal existem sempre dois lados, não, três, quatro, cinco, vários são os olhares, e sensações, expectativas, imagens, representações que são feitas do um, do dois, dos outros. Et qu’est que je fais? Je ne sais pas.

30.08.2008

domingo, 17 de agosto de 2008

Diálogo um
Alcina Magalhães


Emma – Sou carente e sonhadora. Sinto-me só junto às pessoas com quem convivo. E você, Sofia, como se sente em relação ao outro?

Sofia – Aprendi que estamos sós no mundo e que devemos contar apenas conosco para solucionar nossos problemas e satisfazer nossos desejos. Num determinado momento da vida somos instados a cumprir o compromisso que temos conosco e que passa pela “consciência de si”, pelo reconhecimento e aceitação de nosso ser-si-mesmo , pelo reconhecimento e aceitação do ser-si-mesmo-do-outro, que faz com que eu determine um limite até onde posso ir e até onde posso aceitar que o outro venha interferir no meu modo de ser e viver, assim como eu no modo de ser e de viver do outro. Aprendi a aceitar os fatos sobre os quais não tenho controle e viver em função de meus possíveis, não importa quais sejam. Obtive a liberdade de ser quem sou, libertei-me de meus medos, libertei-me do desejo de querer que o outro viva, ou aja, ou seja, como eu gostaria que vivesse, agisse ou fosse. Sou livre e deixo o outro livre. Sinto paz.

Emma – O que faço para atingir o estágio que você atingiu?

Sofia – Você terá que descobrir o seu caminho. Sozinha. Usar a vontade para atingir o fim que deseja. Fazer as correções de rota que se fizerem necessárias, sem olhar para trás, porque como diz Nietzsche, o homem “é uma ponte e não um fim”[1]. O mais importante você já tem: o reconhecimento de sua carência e o desejo de fazer mudanças.

Julho/2008
[1] Assim falou Zaratustra, Primeira parte, prefácio, § 4

sábado, 9 de agosto de 2008

Une fleur


flor da cerejeira
Aix-en-Provence
fev/2008

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Entrelaçando Ciência e Religião
Alcina Magalhães


“Minha liberdade, escreve Merleau-Ponty, é o poder fundamental que tenho de ser o sujeito de todas as minhas experiências.” [1]

“A Igreja era incapaz de contemplar a verdade de um novo sistema do mundo que parecia contradizer uma passagem do Velho Testamento.” Karl Popper[2]



Introdução

“Ocorreu-me que a base última da necessidade que o homem tem da religião é a impotência infantil, que é muito maior no homem do que nos animais. Passada a infância, ele não pode conceber um mundo sem pais e cria para si mesmo um Deus justo e uma natureza delicada, as duas piores falsificações antropomórficas que ele poderia ter imaginado...”
Cartas de Freud a Jung, 2 de janeiro d 1910


Houve um tempo em que Religião e Ciência se confrontaram e não só Sócrates ter sido obrigado a beber cicuta, como também aqueles que foram queimados na fogueira e banidos de seus lares são exemplos que as fontes históricas registraram para não serem esquecidos e nunca mais repetidos em nome de um poder político-econômico-religioso.
O que se objetiva neste texto é, considerando os conhecimentos científicos atuais e a evolução pela qual passou a Igreja através dos tempos, saber se seria possível afirmar hoje a existência de diálogo entre ciência e religião. Poder-se-ia com a ajuda da Mecânica Quântica concluir a existência de caminhos comuns entre ciência e religião? O que se deseja é trilhar os caminhos para a verificação da existência de fundamentos e princípios que elucidem a questão. Fácil se torna tirar conclusões apressadas, forçar a interpretação que se queira dar a respeito do que quer que seja, forjando idéias no sentido de chegar a um destino de antemão definido, apoiado inclusive em argumentos científicos.

“A ciência não pensa.” Heidegger.
“A religião é o ópio do povo.” Marx.

Que caminho seguir? Aquele que mostre que a ciência realmente não pensa quando reduz o real ao racional; aquele que mostre que a religião realmente é o ópio do ser que não quer pensar, que quer o comodismo da alienação, da fuga, da crença pura e simples.

Religião para quê?

“Somos nossa alma, mas não temos sua idéia; mantemos com ela apenas o contato obscuro do sentimento.” Merleau-Ponty [3]

Como surgem os deuses? Com que finalidade? O homem quer entender o real e a ele coube criar os deuses para ter a ilusão de que não existem perguntas sem respostas. Aceitou a resposta que ele mesmo criou para explicar o que não sabia, para explicar o mistério, só que “o mistério nunca será decifrado”[4] e temos que saber isto, devemos entender que crer na existência de um ou de vários deuses é uma decisão que se toma, é uma “atitude mental”[5] que se tem na vida por si mesmo ou por herança do ambiente familiar. Somos feitos de natureza a crer facilmente naquilo que esperamos[6], então elevamos o pensamento aos céus “para agradecer dons e benefícios, para suplicar novos dons e benefícios, para lembrar a bondade dos deuses ou para exorcizar sua cólera”[7].
“Qual é a maior felicidade?” Ser-lançado-no-mundo e viver inspirado pelo afeto e pelo conhecimento. Apoderar-se do presente de poder ver uma flor que se abre, sentir seu aroma, admirar suas cores, ou acordar com o chilrear dos pardais, ou caminhar no exato momento em que um sangrento pôr-do-sol ilumina as colinas ao longe. Não se deixar ludibriar por dogmas, pré-conceitos, hábitos herdados. “Aceitar que somos seres limitados, com vidas finitas, num Universo que nada liga para nossa existência. E que temos de assumir a responsabilidade pelas nossas escolhas”.[8] Não precisamos de deuses para “descobrir os segredos de nosso mundo”.[9] O divino está inside us e da Natureza fascinante que temos o prazer de contemplar e o dever de respeitar. Religião natural como ensina Rousseau, nada mais. Não precisamos de religião, não precisamos entrar em comunhão com um deus para nos tornarmos mais fortes. A força está dentro de nós quando temos, graças à ciência, as explicações que precisamos para entender o real, para combater o medo, quando temos inclusive a sabedoria de que existem mistérios, de que existem perguntas sem respostas, que a nós cabe apenas aceitá-las, saber que o estatuto delas é exatamente este até que, daqui a dez, cinqüenta, mil ou milhões de anos, serão desvendadas e outras perguntas sem respostas aparecerão porque quanto mais fatos conhecemos, mais fatos por conhecer surgem no mundo. A força para “suportar os sofrimentos da existência” [10] está no conhecimento de que sofrer é inerente ao viver, não adianta fugir do sofrimento, às vezes, é o próprio caminho que se toma para dele escapar que leva o ser a encará-lo. E o mito de Édipo vem-me à lembrança.
Podemos “religar” nosso espírito com a poesia, com o encantamento dos mitos, com a filosofia, com os concertos para piano de Liszt. Porém, este é o caminho árduo, é o caminho do pensamento, é o caminho que leva tempo, é o caminho que necessita de aprendizagem pois como diz Carneiro Leão, “para pensar não basta querer. É preciso aprender”[11]. Não é o caminho que as pessoas querem tomar porque elas não querem pensar por si mesmas, rever seus conhecimentos, partir do zero, “suspender o juízo” – como nos ensina Descartes –, a respeito de um conceito, de uma idéia, de uma opinião; avaliar, examinar, ponderar, até obter uma conclusão diante de si para explicar o conceito, a idéia, a opinião e a partir daí adotá-la como sua. Elas querem respostas rápidas, aceitam a opinião do outro, são impacientes, não querem fazer nenhum esforço; acreditar é fácil e cômodo: ‘o segredo’, ou qualquer livro de auto-ajuda, ou religião. Ilusão que o ser escolhe para tornar a vida suportável através da fuga, através do não enfrentamento das limitações humanas, através da não-aceitação da finitude humana – ou, na palavra que Marx usou: “ópio”. Os oprimidos, os explorados, os despossuídos, os humilhados, se acomodam com a esperança de uma “outra vida feliz” em vez de se esforçarem e lutarem para sair da condição de oprimidos, de explorados, de despossuídos, de humilhados, “neste mundo”.
Não se quer dizer que religião seja um “discurso destituído de sentido”[12]. O que se quer é chamar a atenção para o fato de que muitas vezes as pessoas buscam a religião em momentos de fragilidade emocional, o que as torna presas fáceis de manipulação por terceiros aproveitadores, o que as leva a se deixarem dominar por “falsas doutrinas” que ilusoriamente as ajudam a superar as dificuldades em vez de buscarem o conhecimento que as fortalece para reagir, para enfrentar e combater os problemas que vivem, seja a angústia da morte de si que vêem na morte do outro, seja o medo de sofrer – males de sempre e que a leitura de Epicuro muito nos ajuda –, seja a depressão, seja o ataque de pânico, seja a ansiedade – males de nossa “modernidade líquida”[13] que não se sustenta em valores universais, em virtudes morais e éticas como nos ensina Sócrates.
“Qual é a maior infelicidade do mundo?” Viver uma vida indigna de ser vivida. Uma vida em que se depende de outrem em atividades físicas e fisiológicas básicas. Uma vida em que se depende de uma máquina para dizer “I am alive”. Solução? é óbvio que existe – o suicídio ou a eutanásia. Mas nem todos os seres humanos têm a coragem de ir em frente ou alguém que os ajude a realizá-lo.

Ciência para quê?

“... o esforço para a obtenção do conhecimento e a procura da verdade ainda são os motivos mais fortes da descoberta científica.”[14] Popper


Ciência para esclarecer o que está obscuro. Ciência para desvelar a verdade que está encoberta por densa nuvem de desconhecimento. Ciência para transformar o mundo. Ciência “como arma fundamental no enfrentamento das forças cegas da natureza”[15], não totalmente porque ainda faltam muitos enigmas por decifrar. “A ciência diz-nos o que podemos saber, mas o que podemos saber é muito pouco” [16] e isto o homem não aceita em sua sede de conhecimento, quer conhecer tudo, transformar o real e poder afirmar a supremacia da razão, o poder da técnica. O homem esquece que o conhecimento é limitado em sua própria natureza, é uma criação do ser imperfeito que somos e sempre seremos.
Vincular ciência à razão, conhecimento matemático obtido com métodos adequados, conhecimentos precisos, lógicos e técnicos que possuem coerência, concretude, consistência e universalidade, não significa buscar respostas racionais para todos os fenômenos do real porque os fenômenos humanos possuem leis próprias e seu sentido e significação não podem ser explicados através de axiomas, postulados, hipóteses, definições e deduções. É o homem que faz ciência, então é o cientista que tem de aprender a se conectar com o humano porque quando a ciência não pensa o individual, o singular, o complexo, o sentimento, a emoção, o verdadeiro sentido da vida, a beleza da poesia e a linguagem, então só resta concordar com Heidegger.


Considerações finais

“Explicar, explicare, é despojar a realidade das aparências que a envolvem como véus a fim de que se possa vê-la nua e face a face.” Pierre Duhem[17]

As mentes que precisam acreditar em algo se deixam iludir por autores que forjam explicações da Mecânica Quântica para fenômenos sobrenaturais, para forças físicas invisíveis que abandonam corpos para se conectarem com outros corpos justamente devido à dualidade onda-partícula. Usam a física para “acreditar que a matéria é feita de espírito e que, portanto, nos conduz diretamente à contemplação de Deus”[18]. Quem não acredita nas lindas palavras “concepção espiritualista da matéria”?[19]. E “[consciência] como um objeto quântico, sujeita portanto a todas as leis que regem os objetos quânticos”[20]?
“O homem nasce livre”[21] e se deixa prender a dogmas, crenças, se deixa conduzir por outrem em vez de tomar as rédeas da vida que é sua e que só é possível através do conhecimento, da sabedoria de que viver e conhecer caminham juntos. A vida tem seu fim em si mesma e a inscrição no templo de Delfos é verdadeira hoje e sempre. “Sciere est posse” nas palavras de Francis Bacon. Poder para agir sobre o real. Poder para agir sobre si mesmo e se deixar transformar pela filosofia. Enfrentar as forças da natureza, libertar-se do medo da morte, seguir em frente, realizar nosso projeto.




Bibliografia



Alves, R. O que é religião, SP: Abril Cultural, brasiliense, 1984, coleção: primeiros passos
Chauí, M. Convite à filosofia. SP: Editora Ática, 2003, 13ª edição
Fonseca, L.B. artigo “Consciência quântica”, pág. 1
http://www.laerciofonseca.com/docs/01-09-2005/A_Consciencia_Quantica.doc
Guitton, J., Bogdanov, G. e Bogdanov, I. Deus e a ciência em direção ao metarrealismo, RJ: Editora Nova Fronteira, 1992, tradução: Maria Helena Franco Martins
Oliva, A. Filosofia da ciência, RJ: Jorge Zahar editor, 2003, coleção: Filosofia passo-a-passo


[1] Chauí, M. Convite à filosofia, pág. 340
[2] Popper, K. Coleção Os pensadores, pág. 128
[3] Merleau-Ponty, M. coleção Os pensadores, pág. 224
[4] Sousa, E. Mitologia II, História e Mito, pág. 36
[5] ibidem, pág. 34
[6] Comte-Sponville, A. Uma educação filosófica, pág. 357
[7] Chauí, M. Convite à filosofia, pág. 255
[8] Gleiser, M. A difícil condição humana
[9] Popper, coleção Os pensadores, pág. 128
[10] Alves, R. O que é religião, pág. 64
[11] Carneiro Leão, E. Aprendendo a pensar, vol. 1, pág. 5
[12] Alves, R. O que é religião, pág. 49
[13] termo criado pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman
[14] Popper, coleção Os pensadores , pág. 122
[15] Oliva, A. Filosofia da ciência, pág. 8
[16] Russell, B. A filosofia entre a religião e a ciência
[17] Oliva, A. filosofia da ciência, pág. 6
[18] Guitton, J. Deus e ciência, pág. 70
[19] ibidem, pág. 85
[20] Fonseca, L. B. artigo “Consciência quântica”, pág. 1
http://www.laerciofonseca.com/docs/01-09-2005/A_Consciencia_Quantica.doc
[21] Rousseau, J.J. Do contrato social – Livro primeiro, capítulo I
Os modos de possibilidades de realização do ser em sua relação com a literatura
Alcina Magalhães


O cotidiano nos impede o acesso à verdade. Verdade que se nos torna acessível através da arte. A literatura, em todas as suas formas, nos permite manter um relacionamento peculiar com os livros que nos leva ao caminho da verdade. Entretanto, na maioria dos casos, a relação não ultrapassa a função de objeto que o livro representa para nós. São dois objetos que se unem durante um intervalo de tempo por razões as mais diversas e que, cumprido o ritual, se afastam e retornam para seus respectivos mundos: o livro para a estante e o ser humano para a cotidianidade que lhe concerne com todas as tarefas que se atribuiu em sua visão de mundo e de vida que realiza.
Existem aqueles seres que nem se relacionam com os livros, e várias podem ser as causas, porém, não pretendo me deter nelas. O ser apenas vive a sua cotidianidade em paz, repetindo automaticamente as fórmulas herdadas, aceitando o conhecimento adquirido com suas ilusões, equívocos e preconceitos. Está bem instalado na anestesia de seus afazeres diários, acomodou-se nesse estado, não lê nada e mantém vivas as razões para não ler; espontânea e naturalmente o ser se mantém em sua inércia. Essa experiência de negação da realização de se tornar ledor está inserida em seu ser sendo não-ledor e gerando todas as conseqüências da escolha que não faz. O ser enraizado nos conhecimentos obtidos na infância sem razão alguma para duvidar do que quer que seja segue seu caminho para a morte. O ser em sua “vida líquida” que escorre por entre os dias.
O ser que lê apenas em função da obrigação de natureza escolar ou profissional não pode se furtar àquela forma de se relacionar que caracteriza tais leituras e posso incluí-lo no mesmo grupo dos que não lêem porque o papel que a literatura poderia exercer em suas vidas não tem solo fértil para germinação. É a leitura estéril que não fertiliza o ser para os questionamentos próprios da vida, leitura que não cumpre a função de levar o ser à essência das coisas, à essência de seu ser-si-mesmo, que deve ser o objeto principal de preocupação e disposição enquanto ser-no-mundo.
Por outro lado, os seres que lêem apenas com o intuito de matar o tédio, ocupar o tempo ocioso, se distrair, para depois retornar para a rotina de preocupações cotidianas, também podem ser incluídos no mesmo grupo dos anteriores, porque não se preocupam com o conteúdo do que lêem, baseiam suas leituras em “lista dos mais vendidos”, em indicações de amigos; não percebem que poderiam estar utilizando esse tempo em livros enriquecedores que os levariam à reflexão, ao questionamento de suas escolhas de vida e, nesse questionar enquanto sujeito e objeto de conhecimento, descobrir o papel principal que lhes cabe na descoberta de um modo de ser autêntico.
É a riqueza do relacionamento do ser com a literatura que me interessa pois é o que engendra o acesso à verdade. A literatura, em todas as suas formas, é um dos caminhos para que o ser humano se desenvolva tornando transparentes as suas falhas e nelas se questionando. A literatura é uma das formas de provocar a inquietação no ser e conscientizá-lo para a vida. É a literatura remetendo o ser para a máxima socrática ‘Conhece-te a ti mesmo’. É a literatura levando o ser à busca de algo; uma busca que nem sempre se sabe onde começa e menos ainda onde termina – quando finda? certamente com a morte –; uma busca não deliberada pois o ser ainda não apreendeu o que lhe falta. A percepção do vazio, da falta, às vezes ocorre ao acaso: é uma palavra que fica vibrando, clamando por atenção, engendrando outras que se unem, se fortalecem e abrem o caminho a seguir; em outros casos, é uma experiência vivida por um ser ficcional que não sai da lembrança, que obriga o existente a parar e pensar naquela determinada situação, daí advindo o seu próprio processo de questionamento, seu momento de individuação, tornando possível o primeiro passo em direção à consciência de si. O confronto do ser real, existente, com a vivência do ser ficcional pode levar a uma tomada de consciência da liberdade de escolha do que quer ser na vida prática, cotidiana. É a oportunidade de rever seus conceitos, atentar para os valores que realmente importam, observar suas virtudes e seus vícios. É o ser ficcional, com toda a vida e realidade que não tem em sua faticidade mas que existe em nosso imaginário, mostrando as possibilidades de ser real que ainda não nos haviam ocorrido.
A literatura é um dos meios de sair da submersão na rotina diária, tomar consciência do que quer e definir seu projeto de ser. A literatura é uma das formas de se chegar à verdade do ser, àquela verdade que vem de seu interior, e que é o caminho para o sentido de seu existir no tempo que lhe é destinado enquanto situado no mundo, àquela verdade que o leva à vida autêntica que deveria viver. É a linguagem em sua força originária e criadora não se limitando apenas ao que é dito mas, e principalmente, ao que não é dito, ao que está subentendido. É o pensamento fundamentando o ser em seu projeto de possibilidades que estão ao alcance e que apenas a posse efetiva, a liberdade da escolha de possuir ou não possuir realiza.
A experiência de ser leitor é individual, solitária e silenciosa, e é esse experimentar solitário, individual e silencioso que remete o ser para algum lugar em seu interior. É o momento da escuta; é o momento de a voz da consciência clamar por ouvidos que ouçam o si-mesmo clamando por seus caminhos de realização; é o momento que engendra o discurso da consciência e que o ser em seu momento silencioso capta a voz e inicia seu processo de ouvir e refletir sobre o que ouviu. É o ser ouvindo o clamor da própria consciência clamando por si-mesmo e sendo aclamado a ser-si-mesmo; é o ser se conscientizando da existência de seus modos de ser-si-mesmo a partir de seu próprio si-mesmo e atingindo o estágio de realizar essas possibilidades em vez de protelar como sempre faz. É escolhendo a escolha de ser-si-mesmo que engendra a possibilidade por si mesma, o seu próprio poder-ser, sabendo quem é, o que quer, que faz o que é necessário e por que faz, criando um divisor de águas entre o presente que realiza e o passado e futuro que deseja.
É através da linguagem que o ser investiga o que precisa ser investigado, elabora suas próprias idéias, possibilitando que pensamento e linguagem concorram para o discernimento e para a ação de acordo com as exigências de sua alma, de sua consciência. É através da linguagem que se chega à essência das coisas; é pela linguagem que o ser se abre a si mesmo, ao outro e ao mundo. É o diálogo mudo, silencioso, repleto de signos, estabelecido pelo ser com sua consciência que o remete ao relacionamento com o outro, levando-o a uma compreensão de si mesmo, do outro e do mundo em que está inserido, tornando-o acessível ao ser-si-mesmo-do-outro, iluminando-o em seu ser-si-mesmo-com-o-outro, clareando as regiões de sombra, de ocultamento, proporcionando o caminho, o modo de ir à essência do outro, e não aos usos possíveis que se pode fazer do outro, não-negligenciando o autêntico modo-de-ser-do-outro, não se limitando às aparências e mantendo as zonas de obscuridade veladas pelo formalismo relacional, e sim proporcionando uma existência autêntica em que com-partilha a existência com o outro, em que se mostra ao outro como realmente é, em que é um ser-com-o-outro con-vivendo o mesmo mundo, o mesmo tempo, o mesmo espaço.
Alguns seres fazem a escolha deliberada de se manterem no conforto do não-questionar, do não se interrogar para não terem que ouvir o que não querem ouvir; escolha deliberada de não fazer nenhum esforço. O ser vivendo na banalidade do cotidiano mantém-se em segurança, escolhe a não-escolha do clamor da consciência e impossibilita a escuta, não dá ouvidos a si-mesmo. É o ser preso em suas próprias amarras, arraigado em seus preconceitos, que acredita ter o conhecimento necessário de si e da vida e que se se permitisse questionar esse conhecimento concluiria que, em verdade, nada sabe de nada; é o ser que não se concede o conhecimento de sua interioridade, que vive em função do mundo exterior, do trabalho, do cônjuge, dos filhos, da casa, dos bens materiais, da satisfação dos prazeres e ignora os verdadeiros valores da vida. Até que a angústia venha instá-los a iniciar o processo de individuação. Angústia que nasce por não viver a vida que deveria estar vivendo ou pela proximidade da morte que o remete ao futuro, ao não-ser; é a angústia dele se apossando, desestruturando sua subjetividade que estava velada pela mediania do cotidiano. Foge do questionamento e do pensamento na morte se apoiando no excesso de tarefas que se impõe, no ouvido surdo, no não-querer ter consciência. Às vezes, o ser está dentro desse processo de angústia, que nada mais é que a afirmação de um anseio de ser o que se é, e não sabe; é a oportunidade para que a literatura adequada lhe caia em mãos e o faça perceber a situação que está vivendo mesmo que ainda em um estágio de grande turvação, sem clareza de nada, e o leve à busca de ajuda no esclarecimento da vivência, à busca do entendimento mesmo da angústia, quer o esforço se mantenha e o empurre para a cura, quer não.
Quando o ser está em um processo de questionamento deliberado, em um contínuo interrogar sobre qualquer que seja a questão, o caminho, a direção a seguir é mais clara. O processo de questionamento, de interrogação, uma vez iniciado, leva o ser a um contínuo questionar-se, a um contínuo interrogar-se, a uma atenção constante para a voz que clama por ele, pois sabe que está sendo clamado a viver em conformidade com o seu próprio ser, está sendo clamado a construir-se em função de sua singularidade, está sendo clamado a criar a si mesmo, a ser fundamento de si mesmo. Reconhece a linguagem e o pensamento como veículos necessários e deles faz uso com mais intensidade. O tempo urge e o ser não esquece que o processo está fadado ao fracasso com a finitude de seu ser, o que torna mais fortes as razões para não protelar.
O acesso à verdade de seu ser, o conhecimento de si e do que quer realizar nesse seu processo de estar-no-mundo que lhe foi imposto é o maior bem a que se pode aspirar. O incentivo à leitura de qualidade é uma necessidade que se impõe por si mesma e o compromisso com a ampliação da parcela pensante da sociedade é tarefa de todos aqueles que aprenderam a pensar. O esforço inicial para tornar-se ledor, em alguns seres, demanda um tempo maior, porém, o relacionamento com os bons autores, sejam clássicos ou não, uma vez iniciado, se faz num contínuo que guia o ser todo o tempo nesse aprimoramento e que o leva a transitar pelos vários estágios de relacionamento com a leitura, avançando cada vez mais em suas escolhas, à medida que toma consciência da responsabilidade de seus atos para consigo mesmo, para com o outro e para com o próprio mundo em que vive.



Bibliografia:

Ser e Tempo, Heidegger, M., RJ: Editora Vozes, 2005, 15ª. Edição, tradução: Márcia Sá Cavalcante Schuback
Heidegger & Ser e Tempo, Nunes, B., RJ: Jorge Zahar Editor, 2ª. Edição, coleção: Filosofia passo-a-passo
Heidegger, M., Coleção “Os pensadores”, SP: Abril Cultural, 1979
A filosofia e a morte
Alcina Magalhães

“Nada fiz hoje.” Não viveste então? Pois essa é a ocupação mais fundamental e ilustre.
Montaigne[1]


A função da filosofia

A morte é um universal problema metafísico. Deter-me-ei em duas questões que considero importantes:

1. Como superar a contingência e a finitude da vida?
2. Como não temer a morte?


O ser-destinado-para-a-morte

Ser nascido. Sendo no mundo e não estando na origem do seu existir. A experiência humana ocorre no mundo do si-mesmo (pessoal), no mundo compartilhado (família, amigos, etc.) e no mundo ambiente (natureza e o social) e, uma vez precipitada, a vida segue seu fluxo para o destino irrevogável sem data marcada para ocorrer que interromperá a existência em algum estágio. Quer o indivíduo queira, quer não; quer aceite a idéia, quer não; quer esteja pronto, quer não; quer haja projetos inacabados, quer não. Um dia se adquire esse conhecimento e ele é colocado algures. Então, o ser vive em total alheamento dessa condição que lhe é imposta, como se fosse imortal; ocupa-se todo o tempo em sua cotidianidade e não se recorda desse saber absolutamente certo e inexorável. Viver, apenas viver: brincar, estudar, se alimentar, crescer, trabalhar, cuidar dos bens, amar, casar, ter filhos; a existência se condicionando por fatores externos: ocupações de toda natureza. E o tempo, implacavelmente, seguindo seu curso. Recorrendo a Walt Whitman:
“Nem um dia se passa ... nem um minuto ou segundo sem um parto;
Nem um dia se passa ... nem um minuto ou segundo sem um morto.” [2]
A morte nos espreita diariamente. Não podemos prever os riscos que pairam sobre nós a cada instante. Como o saber-se mortal se encontra escondido em um local de difícil acesso, não nos damos conta de todas as festas e divertimentos em que o “hóspede sombrio”[3] nos espiona. Imaginar a possibilidade só nos causaria horror; tremeríamos de medo se soubéssemos que poucos anos de vida nos restam. Então, permanecemos em nossa fuga inconsciente; pensar nela é sofrimento desnecessário, é antecipar aquilo que não sabemos quando irá acontecer. Um jovem que passa a noite com os amigos, se divertindo, bebendo, imaginaria que aquela seria sua última madrugada? imaginaria que, retornando à casa, dormiria ao volante, o carro iria de encontro a um poste, entraria em coma e morreria dois dias depois? Certamente que não! Seus pais, irmãos, parentes e amigos teriam imaginado a cena? Obviamente foram surpreendidos pelo ocorrido. Insistimos em não pensar no “hóspede sombrio”.
Até o momento em que alguma enfermidade ou a morte de alguém conhecido nos espante como um acontecimento “não natural” e nos advirta de nossa mortalidade. Não só choramos o morto mas também choramos por nós mesmos. E nos perguntamos: para que viver? qual o sentido da vida? Quando enfrentamos a morte do outro ele se torna presente para nós mais totalmente do que jamais o foi em vida até que o tempo cura as feridas e retornamos à nossa “caverna”, onde só distinguimos as sombras que queremos enxergar. Ocultamos no cotidiano a iminência da morte nossa e do outro; fugimos dela pelo divertimento, pelas atribulações que não nos dão tempo para refletir; vivemos a vida padecendo da ânsia do futuro e do tédio do presente, nos ocupamos todo o tempo para não pensar ou nos refugiamos nas lembranças boas do passado; não nos apossamos do nosso tempo – um fragmento de Clarice Lispector vem à lembrança: “quero capturar o presente que pela sua própria natureza me é interdito: o presente me foge” [4] –; deixamos que o presente em seu contínuo movimento flua e nos escape, ocupados que estamos em preencher nosso pensamento com o mundo exterior, inconscientes que estamos de que o tempo que perdemos jamais será recuperado. Queremos morrer ocupados? Conseguimos apenas não viver do jeito que gostaríamos, até que o sentimento de que não somos o que devemos ou queremos ser se instale e a angústia de nós se aposse.
Este é o recado que a angústia nos dá. Experimenta-se o sentimento de não ser o que se é. Algo em nossa vida está errado, não tomamos as rédeas de nosso viver, não nos tornamos responsáveis por nós mesmos, vivemos em função do trabalho ou do amor ou do outro ou dos bens materiais ou do corpo e não nos conscientizamos de que devemos ser o fundamento de nós mesmos, de que devemos assumir de fato nosso próprio existir, de que devemos usar nossa liberdade com o objetivo de um autêntico poder-ser quem somos. “Cuidar de nós mesmos, pôr-nos a nós mesmos em questão nascem justamente de uma superação da individualidade que se eleva ao nível da universalidade, representada pelo lógos” [5] que nos é comum.
Existe diferença entre viver e ser? Sêneca, no século I de nossa era, nos diz que “os ocupados não vivem a verdadeira vida, deixam-se existir” [6]. Deixam-se levar em seu viver cotidiano, repleto de atribulações, até que a visita insidiosa da morte os leve. A angústia é o momento de individuação, de questionamento, de reconsiderar o passado com o objetivo de renascer para a renovação da vida segundo a nossa escolha. A angústia nos salva de nós mesmos. É o total desconhecimento de quem somos, do que queremos da vida que nos leva a protelar as ações que se fazem necessárias para as mudanças que teremos que provocar e é então que a salvação se nos apresenta com o sentimento ambíguo de angústia.
O que fazer agora? Não sabemos que rumo tomar. É o instante em que temos de ser honestos com nós mesmos. Sêneca considera a filosofia como o único conhecimento válido para a vida, cuja finalidade é o aperfeiçoamento moral do homem: tornar-se mais generoso, mais corajoso, mais justo: “podemos discutir com Sócrates, encontrar a paz com Epicuro” [7]. Vamos então seguir os passos de Sêneca e saber o que a filosofia nos diz a respeito desse enfrentamento da angústia.


A filosofia


A filosofia é a inclinação natural para o conhecimento, é o desejo de decifrar os mistérios da natureza, é a tarefa infinita advinda da ignorância permanente do espírito humano porque há mais pontos obscuros no horizonte do que a nossa mente supõe, levando-nos a recordar a “metáfora da montanha”: o mistério cresce à medida que nos afastamos do horizonte que é a própria filosofia. O objetivo do filosofar é levar o indivíduo ao pensamento crítico de si e do mundo e adquirir consciência de si como sujeito e objeto de conhecimento. É um aprendizado que se renova diariamente e que ocorre durante toda a vida. Citando Plutarco que escreveu no início do século II d.C.: “Sócrates foi a primeiro a mostrar que, em todos os tempos e em todos os lugares, em tudo o que nos chega e em tudo o que fazemos, a vida cotidiana dá a possibilidade de filosofar” [8] (grifo meu). E Sêneca em carta a Lucílio diz “o que é instruir-se na filosofia por ações e enfrentar situações reais: é ver de que força de espírito é capaz um homem iniciado nela diante da morte, da dor, da aproximação de uma, da pressão da outra” [9] (grifo meu).


Em que sentido filosofar ajuda o indivíduo a enfrentar a angústia e o temor da morte? O que se deve aprender com a filosofia em meio ao caos da vida moderna, ao consumismo exacerbado e a todas as tarefas urgentes que nos aguardam diariamente?

Pensar por si mesmo. “Pois pensar e ser é o mesmo” [10], diz Parmênides. Ou recorrendo a Descartes: “se eu deixasse de pensar, deixaria ao mesmo tempo de ser ou de existir” [11]. Refletir com o uso da razão pura, sem se deixar levar pelas emoções; pensar e se escutar. Esse deve ser o objeto principal da preocupação e dos cuidados do ser humano em seu existir diário em meio às tarefas que lhe são concernentes nesse seu viver cotidiano; filosofia como escolha de vida, maneira de comportar-se. É isto que o indivíduo faz? Não. Ele não fundamenta sua vida na obtenção do conhecimento que lhe é imprescindível ao existir: conhecimento de si mesmo, dos fundamentos da moral e do determinismo da natureza. Ele ocupa em demasia seu espírito com a realidade exterior, ele não se permite concentração e reflexão sobre si mesmo. Enfrentar a mortalidade que nos é inerente é olhar a morte de frente, é pensar na morte, é aceitar incluir na vida o luto e a alegria, o riso e as lágrimas; é saber e se sentir mortal, é se relacionar com o “próprio poder-não-mais-ser-no-mundo” [12]; é saber que não temos como evitar o encontro com a morte e que este é o fundamento da experiência que o ser humano tem de si mesmo. É esse pensar a morte que desperta a autoconsciência e a mantém em permanente vigília, com a compreensão e aceitação do próprio destino, se libertando dos temores e domando a morte nesta “repetição” que é a filosofia, se abrindo autenticamente para essa possibilidade extrema que é a morte, permanecendo em pensamento junto dela. Esse meditar sobre a morte, dela se “avizinhar” [13], como Montaigne diz, manifesta apenas a vontade de “domá-la”, de assegurar sobre ela certo domínio, tirando-lhe o caráter de pura possibilidade, se conscientizando de que ela faz parte da condição humana e de que a “humanidade não alcança a consciência de si mesma a não ser através do enfrentamento da morte”. [14]
Para filosofar, a alma é o instrumento que se utiliza. Filosofar é libertar a alma através da compreensão e aceitação da realidade com todas as suas dores e sofrimentos. É o espírito aprendendo a se livrar da aparência, da vaidade e do mundo exterior; é o espírito que não protela, criando um verdadeiro divisor de águas entre o passado e o presente que realiza, tecendo a tapeçaria que irá compor com a nova forma de se relacionar com o seu ser, com a sua essência, ensejando o “movimento de retorno [a si] mesmo, de ‘entrada em [si] mesmo’ como dizia Santo Agostinho” [15], atentando para os valores morais que realmente importam na vida, para a posse efetiva de si mesmo, para o destino irrevogável que o aguarda. O que é morrer? É separar a alma do corpo. Vemos aí que há uma identidade entre a morte e a filosofia: ambas resultam no destacar a alma do corpo.
Como diz Sócrates, uma das possibilidades é a morte consistir em não se ter mais consciência: “como um sono em que o adormecido nada vê nem sonha” [16]. Não experienciamos nossa morte, no sentido de que quando deixamos de ter consciência estamos mortos. Nas palavras de Montaigne: “Para começar a despojá-la da vantagem maior de que dispõe contra nós, tomemos por caminho inverso ao habitual. Tiremos dela o que tem de estranho; pratiquemo-la, habituemo-nos a ela, não pensemos em outra coisa; tenhamo-la a todo instante presente em nosso pensamento e sob todas as suas formas” [17]. Nada há a temer, então, “a morte nada é para nós” [18] como nos ensina Epicuro. “De onde vem o temor da morte? [...] Em verdade, os homens temem a morte porque imaginam que o não-ser se seguirá a ela” [19] (negrito meu). Schopenhauer contra-argumenta: “então teriam de temer o não-ser anterior ao nascimento” [20]. Na realidade, o que tememos é o aniquilamento do corpo e não poder satisfazer nossa “Vontade de vida” que está intimamente relacionada ao corpo, aos prazeres, ao mundo objetivo. Deveríamos, então, direcionar nossa “Vontade de vida” para o espírito e objetivar permanecer vivos na memória das pessoas que amamos que, por sua vez, por nos terem amado, manterão acesa a lembrança de quem fomos para as gerações seguintes. Assim possibilitaremos a imortalidade tão sonhada enquanto vivermos na lembrança delas. Como? Através do afeto que distribuirmos em vida, através do comportamento generoso, bom, corajoso, justo, pelo respeito à dignidade humana. Acaso, alguém supõe que Marcel Proust esteja morto? Certamente que não. Apesar de aquele indivíduo não mais estar presente entre nós, ele viverá eternamente na memória de todos aqueles que o leram e o amaram, assim como de todos aqueles que o lerão e amarão no futuro. O mesmo acontece com os milhares de seres desconhecidos que permanecem na lembrança de seus entes queridos por gerações e gerações.
“A filosofia é a tomada de consciência da condição humana, que é a mortalidade. E é assim que Sêneca interpreta o célebre oráculo de Delfos: ‘conhece-te a ti mesmo’. Conhecer a si mesmo significa tomar consciência de sua mortalidade e de seus limites. Dessa forma, a filosofia se apresenta como uma arte da vida solidária a uma arte de morrer.[...] A filosofia terá, como uma de suas principais funções, afastar o homem do medo da morte.” [21]. É a filosofia contribuindo para o homem ter domínio de si mesmo e, conseqüentemente, tornar-se um ser humano melhor, como cidadão, pai, profissional, amigo, amante, ou seja, em todos os seus papéis a cumprir.
Na ficção pode-se criar um mundo em que a Morte se apaixone, dê tréguas ao ser humano, e a partir daquele momento mortes não mais ocorram. Sonho da imortalidade se realizando. Felicidade inominável quando se percebe que ninguém mais morre. Vamos parar um pouquinho e imaginar esse mundo idealizado: o maior terror da humanidade se desmaterializa no ar, se esfumaça. Viver sem a sombra insidiosa da morte pairando sobre nós é o paraíso até que o fenômeno mostre a sua cara e tenhamos que enfrentar as conseqüências boas e ruins advindas da situação. Como se trata de ficção, o criador, no momento oportuno, desfaz o mundo e tudo volta à normalidade. E ficamos felizes porque era tudo ficção. A finitude é o atributo essencial do ser-lançado-para-a-morte; assumir que somos “destinados a morrer” é o fundamento de um existir autêntico.
Nascer para uma vida verdadeira. Viver de acordo com a própria natureza. Cultivar a alma. Reconsiderar o passado que viveu, dele se apropriar, examiná-lo à vontade, a ele voltar de bom grado, não como fuga do presente que está em desacordo com o que se quer, e sim para submetê-lo às censuras da consciência, que nunca se engana. A responsabilidade do que somos é nossa e a morte é essencialmente minha e sua – teremos de enfrentá-la sozinhos. Platão pergunta a Sócrates: “Por que razão nos damos à filosofia?” E Sócrates responde: “Para aprender a bem viver, meu Platão” [22]. Este é o caminho que se pode escolher e trilhar para viver bem, afastar a angústia, aceitar a finitude e não temer a morte. A filosofia e a arte são nossas companheiras para tornar a vida suportável e enfrentar os sofrimentos e as dores porque sabemos que assim é a natureza humana e eles coexistem com as alegrias e os prazeres. Relaxar a urgência vital, reservar um tempo para um sorriso ou uma interrogação: observar e sondar a alma.











Bibliografia:
F. Dastur, A morte – ensaio sobre a finitude, RJ: Editora Bertrand Brasil, 2002, tradução de Maria Tereza Pontes
Platão, Fédon, tradução de Jorge Paleikat e João Cruz Costa, Coleção Os pensadores, SP: Abril Cultural, 1980.
Platão, A defesa de Sócrates, tradução de Jaime Bruna, Coleção Os pensadores, SP: Abril Cultural, 1980.
Platão, A apologia de Sócrates, tradução e apêndice de Maria Lacerda de Moura, coleção universidade, RJ: Ediouro

[1] P. Hadot, O que é a filosofia antiga?, SP: Edições Loyola, 2ª. Edição, pág. 13.
[2] W. Whitman, Folhas de Relva [Pensar no tempo], SP: Iluminuras, 2006, pág. 149.
[3] F. Dastur, A morte – ensaio sobre a finitude, RJ: Editora Bertrand Brasil Ltda, 2002, pág. 61
[4] C. Lispector, Água viva, RJ: Rocco, 1998, pág. 9.
[5] P. Hadot, O que é a filosofia antiga?, SP: Edições Loyola, 2ª. Edição, pág. 60.
[6] Sêneca, Sobre a brevidade da vida, SP: Nova Alexandria, 1993, pág. 35, nota 17.
[7]Ibid., pág. 46.
[8]P. Hadot, O que é a filosofia antiga?, SP: Edições Loyola, 2ª. Ed., 2004, pág. 68
[9] Sêneca, Sobre a brevidade da vida, SP: Ed. Nova Alexandria, 1993, pág. 18.
[10] D. Marcondes, Textos básicos de filosofia, RJ: Jorge Zahar Editor, 2005, 4ª. Edição, pág.13.
[11] R. Descartes, Meditações, Coleção Os Pensadores; SP: Abril Cultural, 1980, pág. 94.
[12] Z. Loparic, Heidegger, RJ: Jorge Zahar Editor, 2004, coleção: Filosofia passo-a-passo, pág. 49
[13] F. Dastur, A morte – ensaio sobre a finitude, RJ: Ed. Bertrand Brasil, 2002, pág. 38, nota 39.
[14] Ibid., pág. 13.
[15] M. Merleau-Ponty, O filósofo e sua sombra, Coleção Os Pensadores; SP: Abril Cultural, 1980, pág. 242.
[16]Platão, A defesa de Sócrates, Coleção Os Pensadores: volume dedicado a Sócrates; SP: Abril Cultural, 1980, pág. 26.
[17] M. Montaigne, Ensaios I, Coleção Os Pensadores; SP: Abril Cultural, 1980, pág. 46.
[18] Epicuro, Antologia de textos, Coleção os Pensadores; SP: Abril Cultural, 1980, pág. 13.
[19] A. Schopenhauer, Metafísica do amor, metafísica da morte, SP: Martins Fontes, 2000, prefácio de Jair Barboza, pág. XV.
[20]Ibid., pág. XVI.

[21] Sêneca, Sobre a brevidade da vida, SP: Ed. Nova Alexandria, 1993, pág. 18
[22] Platão, Apologia de Sócrates-Apêndice, texto: Sócrates corrompe a mocidade, coleção universidade, RJ: Ediouro,
Retorno aos gregos
Alcina Magalhães

O povo grego é o povo filosófico por excelência.
Werner Jaeger[1]






“Uma distância de milênios” nos separa de Tales de Mileto, o “principiador” grego do fenômeno de pensamento. Por que seu nome ainda hoje é pronunciado – assim como todos os outros pensadores originários – por nossos lábios sedentos de modernidade? Que papel eles desempenharam em seu tempo para em pleno século XXI a eles retornarmos sedentos de conhecimento? Como saciar a sede com a água da sabedoria originária grega? O remetimento à Grécia arcaica é uma necessidade que se impõe a nossa “modernidade líquida”[2] com a urgência dos problemas atuais. Observar o céu e cair em um buraco na terra talvez seja a solução para enxergarmos a pequenez do homem em sua “vontade de poder” interferir na natureza, não só dominá-la mas também destruí-la em aspectos essenciais; talvez seja a solução para libertar o “outro” que existe dentro de si, aquele que conhece o Bem e sabe que emular bons sentimentos, boas ações deveria ser próprio do ser humano, deveria ser a sua “essencialidade”; talvez seja a solução para acordar os homens que vivem “ignorantes da lei universal que tudo rege”[3]. Ou, usando as palavras de Carneiro Leão: “é a necessidade que temos de aprender a pensar com o que os gregos pensaram ”.

Para que aprender a pensar? Em nossa mentalidade individualista e impregnada de modernidade o pensar está em segundo plano, só tem valor a aquisição desenfreada de bens, a falta de amor pela natureza, a práxis de viver intensamente, pulando ansiosamente de e-mail em e-mail sem perceber o vazio que nos constitui, sem perceber os pré-conceitos, a convicção que fecha as portas para a experiência da verdade, o esquecimento do que é a “fraternidade primordial e originária entre os seres”[4]. Quem é amigo? Aquele que nos trata bem e não nos diz a verdade ou aquele que nos enfrenta e nos faz parar para pensar? Para que pensar? Pensar incomoda. Constatar a falta que nos constitui incomoda. Construir nossa subjetividade incomoda. Para que pensar? Podemos permanecer alegres e ocupados, porém, ignorantes, a caminho da morte.

Essa é a lei universal e necessária – idéia que o Ocidente herdou dos primeiros pensadores gregos – que rege a natureza quer queiramos ou não, quer pensemos a respeito ou não, quer aceitemos ou não, quer tenhamos projetos ou não, quer nos ocupemos freneticamente ou não. A todos a lei se aplica, indiscriminadamente, enquanto vivemos nossa cotidianidade, enquanto insistimos em não pensar no “hóspede sombrio”[5], enquanto nos divertimos com a festa constante e nos julgamos imortais. Para que aprender a pensar?

Quem realmente quiser descobrir deve penetrar nas agudas reflexões que os “pensadores originários” nos legaram, deve se deixar envolver pela poesia de Anaximandro[6]. São poucos os fragmentos legados – talvez seja bom serem poucos fragmentos – e quem neles se debruça tem a oportunidade de des-cobrir o que está velado, des-cobrir as sementes de pensamento ainda úmidas e em vias de germinar em solo apropriado, des-cobrir a linguagem inesperada que provoca o pensar, des-cobrir a “harmonia oculta” entre physis e anthropos que proporciona saúde e felicidade. Porém, não se pode esquecer que a caminhada é árdua, afinal mais de dois mil e quinhentos anos nos separam desses textos e nossos olhos e mentes impregnados de tecnologia terão a dificuldade inicial de adaptação que, tão logo vencida, dará origem ao retorno à “natureza originária” que permeou o espírito dos homens daquele tempo.

“Se não se espera, não se encontra o inesperado, sendo sem caminho de encontro nem vias de acesso.”[7] Deve-se caminhar pelos fragmentos com esta idéia em mente: é nos meandros dos textos que acordamos o não-pensado, que recuperamos a tragédia da poesia e mitologia vigente na época[8]. Deve-se caminhar pelos fragmentos com a certeza de encontrar o inesperado, com a certeza de encontrar a poesia que a racionalidade, a técnica, a ciência e o desaparecimento de algumas referências, cegou, obscureceu; deve-se caminhar pelos fragmentos como se estivéssemos tateando na “caverna” escura até nos encontrarmos na claridade do pensamento.

Para que aprender a pensar? Aprender a pensar é a atitude sábia para descobrir o que realmente importa na vida em seu conjunto, ou seja, nas ações, nos sentimentos e nas expressões; para determinar o que está e o que não está em nosso poder; para se comprometer com a realização daqueles bens que tornam a vida verdadeiramente humana, dotada de sentido, livre, autônoma, consciente da nossa posição no cosmos, voltada para a redução da violência e da intolerância nas relações sociais, voltada para a redescoberta dos valores morais[9].

Para que aprender a pensar? Para atingir a essência de Ser. Para despertar do sono profundo que assola o nosso viver contemporâneo. Para libertar as forças do espírito e florescer. Para se deixar acolher no “barulho do silêncio”, na passividade ativa, no ócio, que liberta as forças criativas aprisionadas em nosso interior. Para ser livre, pois “somos livres quando somos o que pensamos, sentimos e fazemos”[10]. Para aprender a pensar urge ler o mais famoso mestre da humanidade; para aprender a pensar urge ler a experiência grega de pensamento. Para aprender a pensar a filosofia, a literatura, as artes, a ciência e a matemática são ferramentas essenciais. “Só aprendendo a pensar com qualidade iremos realizar o vôo de Ícaro, a viagem às profundezas mais distantes dos oceanos previstas por Júlio Verne ou, até mesmo, a amar de forma profunda e infinita como nas obras de Shakespeare...”[11]








Bibliografia:

Carneiro Leão, E. – A história na filosofia grega (texto adotado no curso História da Filosofia Antiga I – UFRJ/IFCS 2008/1)
Quintão, D. – Seguindo o todo por toda terra – uma fenomenologia do arcaico nos gregos, RJ: Ed. Loyola, 2007
Os pensadores originários: Anaximandro, Parmênides, Heráclito, Bragança Paulista: EDUSF, 2005, 4ª. edição, introdução: Emmanuel Carneiro Leão, traduções: Emmanuel Carneiro Leão e Sérgio Wrublewski
Ciclo de palestras: “Vida, vício, virtude”, Academia Brasileira de Letras, 2008, palestras sobre: Sabedoria, O vazio do pensamento, Intolerância, Liberdade, org. Adauto Novaes









[1] Jaeger, W., Paidéia, pág. 12
[2] termo criado por Zygmunt Bauman, sociólogo polonês
[3] Pré-socráticos, coleção Os pensadores, pág. XXXI
[4] Quintão, D., Seguindo o todo por toda terra, pág. 265
[5] Dastur, F., A morte – ensaio sobre a finitude, RJ: Editora Bertrand Brasil Ltda, 2002, pág. 61
[6] Quintão, D., Seguindo o todo por toda terra, pág. 267
[7] Heráclito, fragmento 18, tradução: E. Carneiro Leão – Os pensadores originários – Anaximandro, Parmênides, Heráclito, pág. 63
[8] Os pensadores originários – Anaximandro, Parmênides, Heráclito, introdução de E. Carneiro Leão, pág. 10
[9] Perine, M. – Ciclo: Vida, vício, virtude – palestra sobre a Sabedoria
[10] Chauí, M. – Ciclo: Vida, vício, virtude – palestra sobre a Liberdade
[11] Machado, J.L.A., http://www.planetaeducacao.com.br/novo/artigo.asp?artigo=302 pesquisa: 14.07.2008

sábado, 2 de agosto de 2008

une fleur

um click em um vaso quando eu e Fabricio andávamos em Stockolm. fev/2008