quarta-feira, 20 de julho de 2011

Cadernos de Laura I


Alcina Magalhães

O quadro

Sempre me lembro de um quadro que vi numa exposição: “Maternidade” de Castel – Juan Pablo Castel, um pintor argentino.  A imagem de um pedacinho desse quadro não me saía da cabeça: no alto, à esquerda, através de uma janelinha, vê-se uma praia solitária e uma mulher que contempla o mar. Não me preocupei com o fato de ficar pensando naquele fragmento do quadro por tanto tempo; a solidão era tão pungente que me deixou melancólica. Agora sei que  me vi naquela cena, era eu a mulher solitária que olhava o mar - que me deixa consciente de que sou a ruína de mim mesma, da minha pequenez no mundo, dessa necessidade grande de me isolar e permanecer só com meus pensamentos, sem ninguém por perto, apenas  o "barulho do silêncio" que me permite o murmúrio interior, a oportunidade de realizar descobertas e estabelecer um novo começo. “Sou um indivíduo frostiano, isolado no espaço e no tempo”, a chuva que cai lá fora exacerba a solidão porque não posso passear e ao olhar através da janela vejo apenas a rua deserta e a tarde que flui preguiçosamente enquanto ouço Billie Holliday. Como Fernando Pessoa, também "não sou da companhia": j'ai besoin de la solitude, j'ai besoin de rester seule pour réfléchir comme Descartes, mais je ne suis pas le philosophe! Sem nada nem ninguém para me inquietar, usufruo apenas momentos de paz para me conectar com minhas vozes interiores; o mar me seduz e alimenta este desejo de dançar sozinha pela casa enquanto sonho acordada.



photo: Marseille, 12.08.2010 (a praia não está deserta e não existe a janela que se abre para o mar mediterrâneo)