quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Todo mundo deveria escrever um diário
Alcina Magalhães


Nunca vivemos, esperamos viver...” André Comte-Sponville



Um dia estamos prontos para enxergar coisas que antes nos passavam despercebidas. Comecei um diário para registrar as miudezas cotidianas que vivia e agora, dez anos depois, relendo esse material de vida aprisionado nas páginas de todos os cadernos que guardo como relíquia, conscientizei-me de alguns fatos e escolhas que fiz conforme as circunstâncias da época. Sou cerebral demais, quero entender tudo e no conto de fadas a bruxa diz que saber demais envelhece, deve ser por isso que olho para minhas mãos e as vejo tão enrugadas. Hoje comecei um novo quadro e sentir a tinta que uso me traz uma alegria estúpida; ainda não sei o que exatamente vou pintar, gosto de olhar para o branco do vazio e imaginar as coisas que podem ser cristalizadas na tela; estou com muitas opções, as idéias se amontoam mas a indecisão que me é peculiar insiste em paralisar o trabalho, estou sempre me perguntando se dessa vez nasce a obra-prima que quero criar porque meu único desejo é criar uma obra-prima, uma que seja, não importa, tem que ser obra de gênio que sobreviva a mim porque a morte esgueira no portão e medo dela eu não tenho mas desejo que seja rápida, indolor. Epicuro diz “a morte é nada” porque morrer é não sentir e hoje eu aceito a idéia de que morrerei, só sinto pena de que morrendo perderei a oportunidade de olhar as belezas da vida, a natureza, os pássaros, as borboletas, fico fascinada quando vejo uma borboleta e frustrada porque ela não pousa em minha mão e não posso acariciá-la. Estou sempre começando um novo quadro porque me entedio com o que estou fazendo e preciso iniciar outro pois a esperança de esse outro ser O quadro não me abandona. Sempre surge uma outra idéia que me parece melhor que a anterior e assim estou a colecionar quadros inacabados, obras-primas que ignoro e deixo em algum lugar da casa. Vivo só e amontoar quadros pela casa não incomoda a ninguém. Se eu tivesse decidido escrever, teria uma grande quantidade de contos inacabados. Quando me aposentei senti que precisava fazer algo de criativo porque tantos anos trabalhando e pensando em Matemática me deixaram com a racionalidade tão em evidência que cheguei à conclusão que minha relação com o feminino estava prejudicada e assim optei pela pintura porque gosto da sensação dos pincéis em minha mão, gosto do cheiro da tinta, das misturas que faço, das linhas que traço. Quero deixar a criatividade fluir, apenas. Leio muito, sou uma leitora voraz. Como se aprender fosse uma questão de vida ou morte. Cada dia descubro mais coisas por aprender. E assim a vida flui, e eu, pintando muito, lendo muito.
2005












A necessidade de viver o amor
Alcina Magalhães
Filho, a vida nos converte às vezes naquilo que realmente não somos.”
Frase em um quadro de Pedro Pablo Oliva, pintor cubano – mostra A arte de Cuba, CCBB-RJ, junho de 2006



Sempre me encanta ouvir uma bela história de amor e me pergunto todos os dias quando enfrento meu olhar no espelho: por que não consegui viver a minha história de amor? O Amor só existe na ficção; na vida real erguemos muralhas e nos fechamos em casulos que nos impedem de amar e ser amados. Temos que nos contentar com o que a vida nos reserva e renunciar a viver o nosso romance? As novelas são um sucesso porque as pessoas precisam ver alguém fazendo o que elas não conseguem fazer na vida real: mudar de vida, trair, falar a verdade, ser autêntica, derrubar as muralhas, sair dos casulos e correr atrás da felicidade; elas se contentam em viver através das vidas fictícias e depois retornam para a mesmice de suas vidas. Agora estou envelhecendo e sozinha, e àquela menina cheia de sonhos que fui um dia só resta a desilusão. Não sei quando comecei a me afastar de mim mesma e permiti que outra Laura comandasse minha vida e agora aqui estou eu caminhando para o nada, sem marido e filhas. A família está longe, na cidade onde nasci e da qual saí para não enlouquecer; sou fragmentos, quero me encontrar inteira e as palavras serão meu instrumento, como se juntando palavras eu colasse meus cacos, os pedaços que deixei nas várias mudanças de residência, de cidade, as raízes que não criei e as que cortei sem perceber o mal que estava me fazendo. Tenho poucos amigos e me sinto atordoada no meio da multidão.
Admitamos que eu seja uma mulher em busca da cura para a Vida.
Sempre me lembro de um quadro que vi numa exposição: “Maternidade” de Castel – Juan Pablo Castel, um pintor argentino. Fiquei com a imagem de um pedacinho dele na cabeça: no alto, à esquerda, através de uma janelinha, via-se uma praia solitária e uma mulher que olhava o mar. Aquele fragmento mostrava uma solidão tão pungente que fiquei melancólica durante meses e um dia percebi naquela imagem obsessiva que eu era a mulher solitária que olhava o mar. E me perguntei: quem sou eu? A ruína de mim mesma. O que quero vir a ser? percebi que o momento era a oportunidade de realizar uma descoberta ou estabelecer um novo começo. “Sou um indivíduo frostiano, isolado no espaço e no tempo” e a chuva que cai lá fora exacerba a solidão porque não posso passear e ao olhar através da janela vejo apenas a rua deserta e a tarde que flui preguiçosamente enquanto ouço B. Holliday. A aceitação dessa minha inclinação natural para a solidão foi um aprendizado doloroso que passou por várias etapas: fuga, sensação de ser diferente, medo da solidão, até o sentimento de prazer que é o que acontece atualmente: quando tenho a opção, procuro a solidão da natureza para viver do meu jeito, fazendo o que me agrada, dançando sozinha pela casa e sonhando acordada. Fujo do mundo para decifrar meu silêncio.

Sou irmã do escritor Rodrigo S.M. que vive na Europa e Julia, sua filha, de vez em quando vem ao Brasil me visitar; tenho uma ligação mais afinada com ela do que com as minhas próprias filhas e, às vezes, penso que a razão é exatamente esta: a convivência não ser amiúde faz o relacionamento ter mais chances de funcionar. Quando estamos longe das pessoas que amamos queremos ficar juntos, abraçar, beijar, e no entanto, quando estamos perto, nossas personalidades se chocam e os atritos são freqüentes. Sempre me recordo do dia em que, ao voltar da cidade, sentou-se ao meu lado, no ônibus, uma jovem que poderia ser minha filha, parecia ter a idade de Luciana; era uma jovem muito agradável e conversadeira, trocamos idéias durante todo o trajeto, e recordo-me dos olhinhos brilhantes dela enquanto eu falava e ela concordava com minhas idéias; o que nunca ocorreu com minhas meninas nas poucas vezes que conversamos sem brigar; Leticia, a minha menina mais nova tem mais afinidades comigo, o prazer da culinária e a paixão pela Beleza.
Há tanta Beleza no mundo!
Moro num local agradável onde posso conviver com meus quadros, meus gatos, minhas plantas, meus livros, minhas músicas. Às vezes, passa um carro e a voz de mulher no alto-falante oferece artesanato nordestino e me incomoda porque sons alheios à minha vontade invadem minha privacidade e o artesanato vendido de porta em porta agride minha sensibilidade. A mediocridade paira no ar; meus antídotos são ouvir música clássica ou jazz e ler meus autores preferidos; já aceitei a idéia de que morrerei antes de ler todos aqueles que gostaria. Tempo é o que me falta. Sou abençoada pelos deuses e pelos cremes, não pareço ter a idade que tenho; a velhice é apenas mais uma etapa que precisamos enfrentar com dignidade e não querer parecer jovem além do que o tempo nos permite, porém, não vejo mal algum em utilizar o que a ciência proporciona e os cremes de boa qualidade que retardam um pouco as rugas.
Tenho o hábito de ler na cama e me deito sempre com uma antecedência de no mínimo duas horas para me deleitar com algum clássico, conforme sugestão de Flaubert; Rodolfo sempre me fazia companhia, era o nosso momento de silêncio e solidão a dois, ambos amantes da leitura, da boa música e do aconchego do lar; e é nessas ocasiões que aproveito para refletir a respeito de alguma palavra ou frase que li e deixo minha mente vagar pelas imagens que o livro traz e vivo à mercê dos seres reais ou imaginários que são minha companhia nessa hora; era nesses instantes que percebia a comunhão de almas que eu e Rodolfo tínhamos e que, com certeza, não terei com mais ninguém. Rodolfo entendia essa minha necessidade de atividades intelectuais e tenho certeza de que ficava orgulhoso por ter uma mulher como eu; por outro lado, ele jamais teria permanecido casado com uma dessas mulheres fanáticas por limpeza e tagarelas que existem. Estou sempre a ler alguma coisa, não importa se um romance, ou um ensaio, ou poesias, ou a biografia de alguém que também tem comunhão de almas comigo; inclusive preciso ler A la recherche du temps perdu, pois Gide fala que “temos a constante impressão de que, ao lê-lo, é para dentro de nós mesmos que ele nos oferece a oportunidade de olhar”. Às vezes, as pessoas não sabem apreciar a beleza do texto de Marcel porque se leva bom tempo lendo algum dos volumes; provavelmente elas estão na expectativa de leitura que sempre fizeram daqueles autores, cujas frases são fáceis de ler, sem densidade e sem a grandeza do gênio. Estou agora deitada, olhando para o teto, mas os olhos pesados me sugerem que o melhor seria dormir um pouco e não imaginar o que seria a minha vida se a adolescente de anos atrás tivesse feito outras escolhas; o "se" é um exercício que não leva a nada. Estou divagando, deve ser o sono se apoderando de mim. A adolescente que fui levou-me a fazer as opções que foram cruciais para o que sou hoje, uma ou outra delas poderia dizer que foi feita por outra Laura e que naquele momento me afastei de mim mesma e deixei as rédeas de minha vida por conta dela. O Deus que pune e absolve após a morte fez-me criar meu próprio deus, afastar-me totalmente da religião e adotar a ciência, o materialismo e o intelecto como filosofia de vida, além de escolher a Matemática como profissão até a aposentadoria; mas sentia que faltava algo e não distinguia o que era. Trabalhar fora – o grande sucesso alcançado pelas mulheres da minha geração – geração da pílula, geração da liberdade – acarretou um acúmulo de funções dentro e fora de casa e nós – pobres coitadas – fomos relegadas a último plano e nem sequer percebemos o que realmente nos falta – meus interesses são tantos – ou meus vazios. A outra foi acreditar que amar mais do que ser amada fosse a garantia de felicidade; o que hoje, mãe de duas jovens, vejo de forma totalmente oposta. Não quero tomar o trem para 2046 porque não acredito que existirá um momento em que o amor não doerá; o amor sempre dói.
Ter Rodolfo e duas filhas, mesmo morando longe, será sempre a lembrança viva de um romance, do meu romance. Sei que não posso afirmar nada com base apenas em mim mesma e nas observações que fiz nas pessoas à minha volta mas tenho a firme convicção de que o Amor não existe. As mulheres com dezenove, vinte anos, um pouco mais talvez, jamais irão imaginar o que será a vida delas aos quarenta ou cinqüenta anos. Eu, hoje, reconheço o fracasso que sou como mulher e mãe.
2006

Pensar pra quê?
Alcina Magalhães

Eu queria não pensar. Pensar nos transforma em seres conscientes e este é o problema: ser consciente traz ansiedade, infelicidade, angústia and the like. A vida era mais leve quando não me preocupava com os outros, quando olhava os deficientes físicos na rua e não me sentia como eles, quando só tinha olhos e ouvidos direcionados para meu umbigo. Naquela época, eu e Rodolfo nos amávamos e éramos felizes; as meninas nasceram e menos tempo tive para observar a mediocridade das pessoas, os amigos que, com o passar do tempo, descobri que são tudo, menos amigos. Agora entendo porque as pessoas evitam pensar. Pensar faz sofrer. Sofrer para quê? não somos donos da verdade e não temos como mudar o mundo, as pessoas, as doenças, os sofrimentos alheios. Deveria existir uma forma de não-pensar. Entendo também o por quê de as pessoas não me procurarem: eu as incomodo porque as faço pensar, eu mexo em assuntos que elas passaram a vida escondendo delas mesmas, fingindo que não existem. Para que antecipar o enfrentamento dos medos se não sabemos quando estaremos cara-a-cara com eles? Pode ser nunca. A finitude, às vezes, nos protege do sofrimento. Para que antecipar algo que nem sabemos se iremos ter? então nós os colocamos em um local bem recôndito e pedimos aos deuses para nos poupar, rezamos diariamente ou só naqueles momentos em que algum acontecimento no-los traz à memória novamente. E assim vamos vivendo...crédulos que os deuses nos protegem e que seremos poupados do sofrimento. Até que um soco no estômago nos faça enxergar a realidade. Ou não.
2006

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

"[...] a partir da semelhança entre os pensamentos e paixões dos diferentes homens, quem quer que olhe para dentro de si mesmo, e examine o que faz quando pensa, opina, raciocina, espera, receia etc., e por que motivos o faz, poderá por esse meio ler e conhecer quais são os pensamentos e paixões de todos os outros homens, em circunstâncias idênticas. Refiro-me à semelhança das paixões, que são as mesmas em todos os homens, desejo, medo, esperança etc.; e não à semelhança dos objetos das paixões, que são as coisas desejadas, temidas, esperadas etc."

Hobbes, Leviatã, introdução, pág. 6