Alcina Magalhães
“Nunca vivemos, esperamos viver...” André Comte-Sponville
Um dia estamos prontos para enxergar coisas que antes nos passavam despercebidas. Comecei um diário para registrar as miudezas cotidianas que vivia e agora, dez anos depois, relendo esse material de vida aprisionado nas páginas de todos os cadernos que guardo como relíquia, conscientizei-me de alguns fatos e escolhas que fiz conforme as circunstâncias da época. Sou cerebral demais, quero entender tudo e no conto de fadas a bruxa diz que saber demais envelhece, deve ser por isso que olho para minhas mãos e as vejo tão enrugadas. Hoje comecei um novo quadro e sentir a tinta que uso me traz uma alegria estúpida; ainda não sei o que exatamente vou pintar, gosto de olhar para o branco do vazio e imaginar as coisas que podem ser cristalizadas na tela; estou com muitas opções, as idéias se amontoam mas a indecisão que me é peculiar insiste em paralisar o trabalho, estou sempre me perguntando se dessa vez nasce a obra-prima que quero criar porque meu único desejo é criar uma obra-prima, uma que seja, não importa, tem que ser obra de gênio que sobreviva a mim porque a morte esgueira no portão e medo dela eu não tenho mas desejo que seja rápida, indolor. Epicuro diz “a morte é nada” porque morrer é não sentir e hoje eu aceito a idéia de que morrerei, só sinto pena de que morrendo perderei a oportunidade de olhar as belezas da vida, a natureza, os pássaros, as borboletas, fico fascinada quando vejo uma borboleta e frustrada porque ela não pousa em minha mão e não posso acariciá-la. Estou sempre começando um novo quadro porque me entedio com o que estou fazendo e preciso iniciar outro pois a esperança de esse outro ser O quadro não me abandona. Sempre surge uma outra idéia que me parece melhor que a anterior e assim estou a colecionar quadros inacabados, obras-primas que ignoro e deixo em algum lugar da casa. Vivo só e amontoar quadros pela casa não incomoda a ninguém. Se eu tivesse decidido escrever, teria uma grande quantidade de contos inacabados. Quando me aposentei senti que precisava fazer algo de criativo porque tantos anos trabalhando e pensando em Matemática me deixaram com a racionalidade tão em evidência que cheguei à conclusão que minha relação com o feminino estava prejudicada e assim optei pela pintura porque gosto da sensação dos pincéis em minha mão, gosto do cheiro da tinta, das misturas que faço, das linhas que traço. Quero deixar a criatividade fluir, apenas. Leio muito, sou uma leitora voraz. Como se aprender fosse uma questão de vida ou morte. Cada dia descubro mais coisas por aprender. E assim a vida flui, e eu, pintando muito, lendo muito.
2005
Um dia estamos prontos para enxergar coisas que antes nos passavam despercebidas. Comecei um diário para registrar as miudezas cotidianas que vivia e agora, dez anos depois, relendo esse material de vida aprisionado nas páginas de todos os cadernos que guardo como relíquia, conscientizei-me de alguns fatos e escolhas que fiz conforme as circunstâncias da época. Sou cerebral demais, quero entender tudo e no conto de fadas a bruxa diz que saber demais envelhece, deve ser por isso que olho para minhas mãos e as vejo tão enrugadas. Hoje comecei um novo quadro e sentir a tinta que uso me traz uma alegria estúpida; ainda não sei o que exatamente vou pintar, gosto de olhar para o branco do vazio e imaginar as coisas que podem ser cristalizadas na tela; estou com muitas opções, as idéias se amontoam mas a indecisão que me é peculiar insiste em paralisar o trabalho, estou sempre me perguntando se dessa vez nasce a obra-prima que quero criar porque meu único desejo é criar uma obra-prima, uma que seja, não importa, tem que ser obra de gênio que sobreviva a mim porque a morte esgueira no portão e medo dela eu não tenho mas desejo que seja rápida, indolor. Epicuro diz “a morte é nada” porque morrer é não sentir e hoje eu aceito a idéia de que morrerei, só sinto pena de que morrendo perderei a oportunidade de olhar as belezas da vida, a natureza, os pássaros, as borboletas, fico fascinada quando vejo uma borboleta e frustrada porque ela não pousa em minha mão e não posso acariciá-la. Estou sempre começando um novo quadro porque me entedio com o que estou fazendo e preciso iniciar outro pois a esperança de esse outro ser O quadro não me abandona. Sempre surge uma outra idéia que me parece melhor que a anterior e assim estou a colecionar quadros inacabados, obras-primas que ignoro e deixo em algum lugar da casa. Vivo só e amontoar quadros pela casa não incomoda a ninguém. Se eu tivesse decidido escrever, teria uma grande quantidade de contos inacabados. Quando me aposentei senti que precisava fazer algo de criativo porque tantos anos trabalhando e pensando em Matemática me deixaram com a racionalidade tão em evidência que cheguei à conclusão que minha relação com o feminino estava prejudicada e assim optei pela pintura porque gosto da sensação dos pincéis em minha mão, gosto do cheiro da tinta, das misturas que faço, das linhas que traço. Quero deixar a criatividade fluir, apenas. Leio muito, sou uma leitora voraz. Como se aprender fosse uma questão de vida ou morte. Cada dia descubro mais coisas por aprender. E assim a vida flui, e eu, pintando muito, lendo muito.
2005
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