terça-feira, 23 de setembro de 2008

Viva a ilusão!

Alcina Magalhães

Esta é a alternativa para que o fluxo da vida se mantenha. A imortalidade é possível, os acidentes podem ser evitados, o determinismo é apenas o que acontece ao outro; basta querermos e agirmos de acordo que nossos amados morrerão de velhice. Expectativa de vida não é apenas uma estatística. A bolinha de cristal está à disposição de todos aqueles que querem ter o controle. Simples assim: hoje faço a consulta diária e elimino todas as ações que terão conseqüências nefastas. Ou então o gato coloca na minha porta o jornal do dia seguinte. Simples, muito simples. Ninguém mais morre e o sofrimento é banido da face da terra. Até quando? Até ao momento em que o espaço se torna tão exíguo que um devora o outro para poder respirar. Até ao momento em que o doente uivando de dor pede para que lhe estourem os miolos. A ilusão de pensar que "se não fosse o acidente se viveria muito mais, tornar-se-ia velho e enrugado" . Será? É a bola de cristal que informa isto? Não. É a ilusão de supor que se sabe algo quando a única certeza que se tem é a que todos nós sabemos. O jovem de dezenove anos imaginava que aquele sábado em que se dirigia para o curso de Japonês no Clac da UFRJ seria o último? Sua mãe deveria tê-lo enjaulado em casa para evitar a dor que, tenho certeza, sentirá enquanto viver? Ora bolas! Existir, ser-lançado-no-mundo é isto e não temos como mudar isto. Sofreremos o que tivermos de sofrer, o tempo que tivermos de sofrer, até sairmos de cena; a morte é exatamente sairmos de cena para ficarmos na memória, para deixarmos os outros seguirem representando seus papéis, brincando, rindo, chorando, até também eles saírem de cena porque outros seres foram lançados no mundo. Um círculo que se fecha enquanto outro se inicia. Até ao colapso do universo. Ou não.

21.09.2008

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Minha dívida

Alcina Magalhães

Faz dez dias, meu preto, e eu não deixarei de lutar por mudanças nas ruas do bairro, pela colocação de quebra-molas e placas. Quero proteger os outros animais. Sei que não mais o terei para colocar no colo e apertar. Sei que falhei; pensava que a liberdade era um direito seu e permitia os passeios que tantas vezes pedia. Sou impotente em proteger aqueles que amo, mas buscarei forças e lutarei o quanto for necessário para reduzir as mortes por atropelamento na minha área. Agora é tarde para mim porque ficarei sem sua companhia, sem seu olhar doce, sem ouvir seu miado a me dizer que queria colo e carinho, sem seus avisos de que o tempo vai mudar, sem seu pelo delicioso ao toque; mas não é tarde para me proteger de outras dores e menos ainda para proteger algumas rolinhas, pombos, pássaros outros que existem na região, gambás, gatos e cachorros. Neste dia, meu coração em muito alegrar-se-á para compensar a dor que agora me domina. Dor que faço questão de sentir para me punir por pertencer à raça dos humanos. Humanos que se vêem como superiores por serem racionais. É isto ser humano? Não permitir que um ser atravesse a rua e seja colhido por seu veículo pouco antes de atingir o intento que o levou a se dirigir ao outro lado e abandoná-lo sem vida, deixá-lo à mercê de outros humanos pilotando suas poderosas máquinas? É isto ser humano? É para isto que a razão nos foi dada? Obviamente não. Humano foi o rei que cortou a capa para não acordar o gato que dormia.

19.09.2008

domingo, 7 de setembro de 2008

Qu'est que je fais?
Alcina Magalhães

Você sempre consegue me desestruturar. Aqui estou eu: trêmula, triste, chorosa, me vendo em uma encruzilhada, sem saber se a escolha que faço deve ser mantida ou não. Qu’est que je fais? Je ne sais pas. Por que deixo que isto se repita? Sou estúpida. O problema sou eu e isto tem de mudar. Sou livre, mas até que ponto sou livre se permito que isto se repita? Seria ingenuidade acreditar que basta associar o sentimento ao querer para que tudo se realize. Apenas a vontade associada à ação torna a realização possível. Permanecerei aqui nesta cama, sentada, lendo e desejando com um sentimento forte de que tudo mude. Obviamente que, se eu não mover um dedo sequer para que meus atos sejam os necessários, nada acontecerá e daqui a um mês, ou dois, um ano que seja, estarei escrevendo novamente que meus nervos estão em frangalhos porque você faz questão de transformar tudo em problema. Urge que eu tenha “domínio sobre mim mesma e sobre a minha própria ação no mundo da vida”.
06.09.2008

sábado, 6 de setembro de 2008

A mensagem
Alcina Magalhães

Para Marina Colasanti




Abriu a janela no exato instante em que a garrafa passava;
estendeu a mão e apoderou-se dela;
observou que não tinha destinatário nem remetente.
Como é extremamente curiosa, a abriu e leu a mensagem;
sorriu satisfeita.
Refletiu um instante.
Devolveu a mensagem ao interior da garrafa,
vedou-a e deixou que o vento a levasse...
14.03.2005

terça-feira, 2 de setembro de 2008

O manto
Alcina Magalhães



Invisível
o manto me enlaça
e o abraço,
o afeto,
esfumaça.

Um sopro,
dois sopros,
não...
mil,
e ele estilhaça,
a leveza me abraça.
Renasço.

Invisível
o manto te enlaça,
e meu abraço,
meu afeto,
esfumaça.

Agora és tu.
Sopra!
Estilhaça!
Me abraça!
Renasce!
jan/2007
Consciência

Alcina Magalhães


Um dia o ser acorda e percebe que a vida o transformou no que não é, que a festa terminou, que viver se torna um tormento constante, que a juventude se foi, que a velhice mostra a sua cara, que as visitas insidiosas da morte se tornam freqüentes, que ser-só-no-mundo é o que resta do “presente” que foi ofertado ao ser-lançado-na-vida-que-não-pediu. E agora? Com a filosofia e a arte pode-se enfrentar a realidade, descobrir as condições de possibilidades de ser quem é, “exercitar a liberdade condicionada” que ainda tem, suportar o fardo e seguir em frente “apesar de”.
jan/2008