segunda-feira, 4 de julho de 2011

 A vida envolta em poesia

Ela passa os dias a poetar sobre a vida e não consegue agarrá-la; vive nessa contínua busca de si mesma como se lançasse o anzol à espera de pescar a si mesma, não importa sob que disfarce esteja. Vive  a observar o rio da vida ancorada em uma de suas margens, sem que a travessia realmente ocorra, como se  estivesse à espera da vida, de que ela finalmente chegue e a necessidade de poetar desapareça. Laura deseja apenas ser uma mulher forte, que sonha e vive e enfrenta as dificuldades; a cada dia, a cada sofrimento, a cada perda tornando-se mais forte; no entanto, os dias passam e ela se vê um pouquinho apenas mais forte, mantendo-se a distância que a afasta de sua meta ainda muito grande. Desespera-se porque quer chegar logo e não consegue: são tantas as dificuldades a vencer e, no entanto, ela continua sem saber o que fazer. Quais seriam as marcas de uma vida verdadeira e de um indivíduo forte que sabe apreciá-la como fim em si mesma, suficiente e legítima? Um indivíduo que não a sacrifica em nome de uma meta futura, ou de uma felicidade que surge a conta-gotas, ou ainda de um deus que a tudo castiga e pune ou premia com a vida eterna. Seu próprio pensamento fermenta as contradições em que mergulhou: essa ambição de se encontrar a si mesma, essa ambição que agita uma mulher de inteligência acima da média e que não aceita seguir o rebanho. Essa mulher de natureza tão sonhadora e ávida de viver que se interessa por seu verdadeiro eu e que vivia ocupada demais em sua "banalidade cotidiana", vivendo uma vida demasiado agitada e variada sem ter tempo de olhar para o fundo de si mesma. Essa mulher que só agora, após muito viver e conhecer o mundo começa a recolher suas lembranças e reconstituir seu próprio passado em busca de vestígios do que existe de verdadeiro dentro dela, em busca de fragmentos dela mesma, fragmentos esses que se encontram dispersos por aí. Como o sonho mostra: os caminhos tortuosos que escolhe em vez do verdadeiro trajeto a percorrer, seja ele qual for.
Lendo Niels Lyhne, 03.07.2003.

foto: narciso - 2010.