segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Uma viagem inútil
Alcina Magalhães


Hoje voltei ao passado:
uma viagem inútil.
Desejo difuso de algo
pulsando dentro de mim.
Substância viva se desfazendo
que não capta o absurdo
de ansiar regressar no Tempo.

Hoje voltei ao passado.
Mas os olhos
que a tudo contemplaram
não eram os de outrora;
eram frios,
sem emoção,
porque o passado está morto
e o eu de então
também morto está.
Não temos o que ressuscitar!

03.12.04
Um sonho
Alcina Magalhães



Sonhei com o homem sinistro,
meu predador natural.
Ele queria a casa arrombar
e meu mundo interior violar
O coração acelerou;
o medo se fez presente;
adveio uma tarefa urgente:
meus instintos despertar.


03.2004
Apenas uma pergunta
Alcina Magalhães



Que queres da vida?
Que teu Deus te conceda ilusões
e vivas os segundos, os minutos,
as horas, os dias, os meses, os anos,
acreditando que tudo está bem
e que o paraíso te espera?

Que sonhos irrealizáveis te embalem,
te levem a desejos e crenças
e a viagem não seja apenas de ida?
Que a primavera nunca termine
e o frio do inverno nunca se aproxime
para deixar teus ossos doídos?

Que a música penetre teu ser
e que nunca penses na morte?
Que os livros te ensinem tudo
que não saibas, inclusive como
ver-se livre da angústia
e deparar na esquina da vida
com teus fantasmas?

Que o sol aqueça teus momentos
e a tristeza não te apunhale a alma?
Que ressequido por dentro
tuas lágrimas não se transformem em pedras?
Que o amor exista para enganares
teus sonhos e desejos?
Que serás guerreiro e vencerás
a ti mesmo?
Out/2003
Não quero lábios de granito
Alcina Magalhães


Não quero lábios de granito
- não cumpras o rito -,
quero beijar a terra
e tudo que ela encerra,
quero me entranhar nas raízes –
vida mesclada com pó que foi vida – ,
e quando tu contemplares a flor
não saberás que a morte está dentro.
fev/2006