sábado, 30 de agosto de 2008


Primeira vez que me deparo com esta maravilha.
01.05.2008
Eu sou o problema
Alcina Magalhães
Eu sei que eu sou o problema. Je sais. E que faço com o que sei? Je ne sais pas. Essa é a questão e fico noites e noites sem dormir. A coruja crocita lá fora, leio Platão em busca de respostas e termino me fazendo mais perguntas. Vivo socrateando. Termino em aporias as perguntas que me faço e isso é uma contradição porque eu sou a única que poderia ter as respostas que não me dou, as respostas que deveriam ser encontradas dentro de mim. Très bien! Je sais. O kairós é a causa de tudo. Quero relacionamentos vivos em que posso ser eu mesma e não me policiar o tempo todo para não melindrar sentimentos de inferioridade, sentimentos de baixa auto-estima. Estarei sendo egoísta? Vejo as pessoas sendo egoístas e apenas olhando para seus umbigos, colocando seus problemas, seus interesses, em primeiro lugar. Moi aussi? Disponho-me a ajudar as pessoas e elas não querem ajuda. Coloco-me à disposição para consolá-las nos infortúnios da vida e elas não se manifestam. Eu sei que somos limitados por natureza, propensos ao erro – vejo o sol girando em torno da terra e isto é uma verdade para meus olhos, porém a ciência me prova que meus sentidos me enganam. Eu sei que a biologia é a melhor explicação para a necessidade de morrermos – afinal, como viveríamos em espaços contíguos que teríamos de dividir com todos os outros imortais? Je sais et j’accepte ça. A morte não me incomoda porque meu maior problema se chama AMIZADE. É verdade. Parece assunto bobo, assunto de pessoas carentes, mas é a pura verdade. A cada dia me convenço que as pessoas não aprenderam a ser amigas. Ou será que EU é que sou intolerante com as pessoas, com a limitação delas, e fico com a expectativa que não se concretiza? Je ne sais pas. Isto me incomoda porque quero saber, quero usar minha razão até onde sei que posso, reconheço que ela tem limites, afinal como descobrir se deus existe? Faz parte do mistério do mundo e o big bang e Darwin me ajudam a entender um pouco mais e aceitar que temos limite nessa sede de conhecimento. É o tipo de assunto que ou se tem fé ou não porque, RACIONALMENTE, não se pode saber nada a respeito e EU preciso me guiar pela razão para saber algo. E isto eu sei: eu sou o problema; esse desejo de agir bem e querer que o outro também aja bem para comigo; esse desejo de me doar e querer que o outro também se doe. Apenas receber é fácil e cômodo; o difícil é se doar - mas tem de aprender. É assim que eu vejo as coisas, é assim que eu penso, é assim que eu quero que seja, e o outro? O que ele pensa a respeito? Afinal existem sempre dois lados, não, três, quatro, cinco, vários são os olhares, e sensações, expectativas, imagens, representações que são feitas do um, do dois, dos outros. Et qu’est que je fais? Je ne sais pas.

30.08.2008