sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Minha dívida

Alcina Magalhães

Faz dez dias, meu preto, e eu não deixarei de lutar por mudanças nas ruas do bairro, pela colocação de quebra-molas e placas. Quero proteger os outros animais. Sei que não mais o terei para colocar no colo e apertar. Sei que falhei; pensava que a liberdade era um direito seu e permitia os passeios que tantas vezes pedia. Sou impotente em proteger aqueles que amo, mas buscarei forças e lutarei o quanto for necessário para reduzir as mortes por atropelamento na minha área. Agora é tarde para mim porque ficarei sem sua companhia, sem seu olhar doce, sem ouvir seu miado a me dizer que queria colo e carinho, sem seus avisos de que o tempo vai mudar, sem seu pelo delicioso ao toque; mas não é tarde para me proteger de outras dores e menos ainda para proteger algumas rolinhas, pombos, pássaros outros que existem na região, gambás, gatos e cachorros. Neste dia, meu coração em muito alegrar-se-á para compensar a dor que agora me domina. Dor que faço questão de sentir para me punir por pertencer à raça dos humanos. Humanos que se vêem como superiores por serem racionais. É isto ser humano? Não permitir que um ser atravesse a rua e seja colhido por seu veículo pouco antes de atingir o intento que o levou a se dirigir ao outro lado e abandoná-lo sem vida, deixá-lo à mercê de outros humanos pilotando suas poderosas máquinas? É isto ser humano? É para isto que a razão nos foi dada? Obviamente não. Humano foi o rei que cortou a capa para não acordar o gato que dormia.

19.09.2008

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