quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Pensar pra quê?
Alcina Magalhães

Eu queria não pensar. Pensar nos transforma em seres conscientes e este é o problema: ser consciente traz ansiedade, infelicidade, angústia and the like. A vida era mais leve quando não me preocupava com os outros, quando olhava os deficientes físicos na rua e não me sentia como eles, quando só tinha olhos e ouvidos direcionados para meu umbigo. Naquela época, eu e Rodolfo nos amávamos e éramos felizes; as meninas nasceram e menos tempo tive para observar a mediocridade das pessoas, os amigos que, com o passar do tempo, descobri que são tudo, menos amigos. Agora entendo porque as pessoas evitam pensar. Pensar faz sofrer. Sofrer para quê? não somos donos da verdade e não temos como mudar o mundo, as pessoas, as doenças, os sofrimentos alheios. Deveria existir uma forma de não-pensar. Entendo também o por quê de as pessoas não me procurarem: eu as incomodo porque as faço pensar, eu mexo em assuntos que elas passaram a vida escondendo delas mesmas, fingindo que não existem. Para que antecipar o enfrentamento dos medos se não sabemos quando estaremos cara-a-cara com eles? Pode ser nunca. A finitude, às vezes, nos protege do sofrimento. Para que antecipar algo que nem sabemos se iremos ter? então nós os colocamos em um local bem recôndito e pedimos aos deuses para nos poupar, rezamos diariamente ou só naqueles momentos em que algum acontecimento no-los traz à memória novamente. E assim vamos vivendo...crédulos que os deuses nos protegem e que seremos poupados do sofrimento. Até que um soco no estômago nos faça enxergar a realidade. Ou não.
2006

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