quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Entrelaçando Ciência e Religião
Alcina Magalhães


“Minha liberdade, escreve Merleau-Ponty, é o poder fundamental que tenho de ser o sujeito de todas as minhas experiências.” [1]

“A Igreja era incapaz de contemplar a verdade de um novo sistema do mundo que parecia contradizer uma passagem do Velho Testamento.” Karl Popper[2]



Introdução

“Ocorreu-me que a base última da necessidade que o homem tem da religião é a impotência infantil, que é muito maior no homem do que nos animais. Passada a infância, ele não pode conceber um mundo sem pais e cria para si mesmo um Deus justo e uma natureza delicada, as duas piores falsificações antropomórficas que ele poderia ter imaginado...”
Cartas de Freud a Jung, 2 de janeiro d 1910


Houve um tempo em que Religião e Ciência se confrontaram e não só Sócrates ter sido obrigado a beber cicuta, como também aqueles que foram queimados na fogueira e banidos de seus lares são exemplos que as fontes históricas registraram para não serem esquecidos e nunca mais repetidos em nome de um poder político-econômico-religioso.
O que se objetiva neste texto é, considerando os conhecimentos científicos atuais e a evolução pela qual passou a Igreja através dos tempos, saber se seria possível afirmar hoje a existência de diálogo entre ciência e religião. Poder-se-ia com a ajuda da Mecânica Quântica concluir a existência de caminhos comuns entre ciência e religião? O que se deseja é trilhar os caminhos para a verificação da existência de fundamentos e princípios que elucidem a questão. Fácil se torna tirar conclusões apressadas, forçar a interpretação que se queira dar a respeito do que quer que seja, forjando idéias no sentido de chegar a um destino de antemão definido, apoiado inclusive em argumentos científicos.

“A ciência não pensa.” Heidegger.
“A religião é o ópio do povo.” Marx.

Que caminho seguir? Aquele que mostre que a ciência realmente não pensa quando reduz o real ao racional; aquele que mostre que a religião realmente é o ópio do ser que não quer pensar, que quer o comodismo da alienação, da fuga, da crença pura e simples.

Religião para quê?

“Somos nossa alma, mas não temos sua idéia; mantemos com ela apenas o contato obscuro do sentimento.” Merleau-Ponty [3]

Como surgem os deuses? Com que finalidade? O homem quer entender o real e a ele coube criar os deuses para ter a ilusão de que não existem perguntas sem respostas. Aceitou a resposta que ele mesmo criou para explicar o que não sabia, para explicar o mistério, só que “o mistério nunca será decifrado”[4] e temos que saber isto, devemos entender que crer na existência de um ou de vários deuses é uma decisão que se toma, é uma “atitude mental”[5] que se tem na vida por si mesmo ou por herança do ambiente familiar. Somos feitos de natureza a crer facilmente naquilo que esperamos[6], então elevamos o pensamento aos céus “para agradecer dons e benefícios, para suplicar novos dons e benefícios, para lembrar a bondade dos deuses ou para exorcizar sua cólera”[7].
“Qual é a maior felicidade?” Ser-lançado-no-mundo e viver inspirado pelo afeto e pelo conhecimento. Apoderar-se do presente de poder ver uma flor que se abre, sentir seu aroma, admirar suas cores, ou acordar com o chilrear dos pardais, ou caminhar no exato momento em que um sangrento pôr-do-sol ilumina as colinas ao longe. Não se deixar ludibriar por dogmas, pré-conceitos, hábitos herdados. “Aceitar que somos seres limitados, com vidas finitas, num Universo que nada liga para nossa existência. E que temos de assumir a responsabilidade pelas nossas escolhas”.[8] Não precisamos de deuses para “descobrir os segredos de nosso mundo”.[9] O divino está inside us e da Natureza fascinante que temos o prazer de contemplar e o dever de respeitar. Religião natural como ensina Rousseau, nada mais. Não precisamos de religião, não precisamos entrar em comunhão com um deus para nos tornarmos mais fortes. A força está dentro de nós quando temos, graças à ciência, as explicações que precisamos para entender o real, para combater o medo, quando temos inclusive a sabedoria de que existem mistérios, de que existem perguntas sem respostas, que a nós cabe apenas aceitá-las, saber que o estatuto delas é exatamente este até que, daqui a dez, cinqüenta, mil ou milhões de anos, serão desvendadas e outras perguntas sem respostas aparecerão porque quanto mais fatos conhecemos, mais fatos por conhecer surgem no mundo. A força para “suportar os sofrimentos da existência” [10] está no conhecimento de que sofrer é inerente ao viver, não adianta fugir do sofrimento, às vezes, é o próprio caminho que se toma para dele escapar que leva o ser a encará-lo. E o mito de Édipo vem-me à lembrança.
Podemos “religar” nosso espírito com a poesia, com o encantamento dos mitos, com a filosofia, com os concertos para piano de Liszt. Porém, este é o caminho árduo, é o caminho do pensamento, é o caminho que leva tempo, é o caminho que necessita de aprendizagem pois como diz Carneiro Leão, “para pensar não basta querer. É preciso aprender”[11]. Não é o caminho que as pessoas querem tomar porque elas não querem pensar por si mesmas, rever seus conhecimentos, partir do zero, “suspender o juízo” – como nos ensina Descartes –, a respeito de um conceito, de uma idéia, de uma opinião; avaliar, examinar, ponderar, até obter uma conclusão diante de si para explicar o conceito, a idéia, a opinião e a partir daí adotá-la como sua. Elas querem respostas rápidas, aceitam a opinião do outro, são impacientes, não querem fazer nenhum esforço; acreditar é fácil e cômodo: ‘o segredo’, ou qualquer livro de auto-ajuda, ou religião. Ilusão que o ser escolhe para tornar a vida suportável através da fuga, através do não enfrentamento das limitações humanas, através da não-aceitação da finitude humana – ou, na palavra que Marx usou: “ópio”. Os oprimidos, os explorados, os despossuídos, os humilhados, se acomodam com a esperança de uma “outra vida feliz” em vez de se esforçarem e lutarem para sair da condição de oprimidos, de explorados, de despossuídos, de humilhados, “neste mundo”.
Não se quer dizer que religião seja um “discurso destituído de sentido”[12]. O que se quer é chamar a atenção para o fato de que muitas vezes as pessoas buscam a religião em momentos de fragilidade emocional, o que as torna presas fáceis de manipulação por terceiros aproveitadores, o que as leva a se deixarem dominar por “falsas doutrinas” que ilusoriamente as ajudam a superar as dificuldades em vez de buscarem o conhecimento que as fortalece para reagir, para enfrentar e combater os problemas que vivem, seja a angústia da morte de si que vêem na morte do outro, seja o medo de sofrer – males de sempre e que a leitura de Epicuro muito nos ajuda –, seja a depressão, seja o ataque de pânico, seja a ansiedade – males de nossa “modernidade líquida”[13] que não se sustenta em valores universais, em virtudes morais e éticas como nos ensina Sócrates.
“Qual é a maior infelicidade do mundo?” Viver uma vida indigna de ser vivida. Uma vida em que se depende de outrem em atividades físicas e fisiológicas básicas. Uma vida em que se depende de uma máquina para dizer “I am alive”. Solução? é óbvio que existe – o suicídio ou a eutanásia. Mas nem todos os seres humanos têm a coragem de ir em frente ou alguém que os ajude a realizá-lo.

Ciência para quê?

“... o esforço para a obtenção do conhecimento e a procura da verdade ainda são os motivos mais fortes da descoberta científica.”[14] Popper


Ciência para esclarecer o que está obscuro. Ciência para desvelar a verdade que está encoberta por densa nuvem de desconhecimento. Ciência para transformar o mundo. Ciência “como arma fundamental no enfrentamento das forças cegas da natureza”[15], não totalmente porque ainda faltam muitos enigmas por decifrar. “A ciência diz-nos o que podemos saber, mas o que podemos saber é muito pouco” [16] e isto o homem não aceita em sua sede de conhecimento, quer conhecer tudo, transformar o real e poder afirmar a supremacia da razão, o poder da técnica. O homem esquece que o conhecimento é limitado em sua própria natureza, é uma criação do ser imperfeito que somos e sempre seremos.
Vincular ciência à razão, conhecimento matemático obtido com métodos adequados, conhecimentos precisos, lógicos e técnicos que possuem coerência, concretude, consistência e universalidade, não significa buscar respostas racionais para todos os fenômenos do real porque os fenômenos humanos possuem leis próprias e seu sentido e significação não podem ser explicados através de axiomas, postulados, hipóteses, definições e deduções. É o homem que faz ciência, então é o cientista que tem de aprender a se conectar com o humano porque quando a ciência não pensa o individual, o singular, o complexo, o sentimento, a emoção, o verdadeiro sentido da vida, a beleza da poesia e a linguagem, então só resta concordar com Heidegger.


Considerações finais

“Explicar, explicare, é despojar a realidade das aparências que a envolvem como véus a fim de que se possa vê-la nua e face a face.” Pierre Duhem[17]

As mentes que precisam acreditar em algo se deixam iludir por autores que forjam explicações da Mecânica Quântica para fenômenos sobrenaturais, para forças físicas invisíveis que abandonam corpos para se conectarem com outros corpos justamente devido à dualidade onda-partícula. Usam a física para “acreditar que a matéria é feita de espírito e que, portanto, nos conduz diretamente à contemplação de Deus”[18]. Quem não acredita nas lindas palavras “concepção espiritualista da matéria”?[19]. E “[consciência] como um objeto quântico, sujeita portanto a todas as leis que regem os objetos quânticos”[20]?
“O homem nasce livre”[21] e se deixa prender a dogmas, crenças, se deixa conduzir por outrem em vez de tomar as rédeas da vida que é sua e que só é possível através do conhecimento, da sabedoria de que viver e conhecer caminham juntos. A vida tem seu fim em si mesma e a inscrição no templo de Delfos é verdadeira hoje e sempre. “Sciere est posse” nas palavras de Francis Bacon. Poder para agir sobre o real. Poder para agir sobre si mesmo e se deixar transformar pela filosofia. Enfrentar as forças da natureza, libertar-se do medo da morte, seguir em frente, realizar nosso projeto.




Bibliografia



Alves, R. O que é religião, SP: Abril Cultural, brasiliense, 1984, coleção: primeiros passos
Chauí, M. Convite à filosofia. SP: Editora Ática, 2003, 13ª edição
Fonseca, L.B. artigo “Consciência quântica”, pág. 1
http://www.laerciofonseca.com/docs/01-09-2005/A_Consciencia_Quantica.doc
Guitton, J., Bogdanov, G. e Bogdanov, I. Deus e a ciência em direção ao metarrealismo, RJ: Editora Nova Fronteira, 1992, tradução: Maria Helena Franco Martins
Oliva, A. Filosofia da ciência, RJ: Jorge Zahar editor, 2003, coleção: Filosofia passo-a-passo


[1] Chauí, M. Convite à filosofia, pág. 340
[2] Popper, K. Coleção Os pensadores, pág. 128
[3] Merleau-Ponty, M. coleção Os pensadores, pág. 224
[4] Sousa, E. Mitologia II, História e Mito, pág. 36
[5] ibidem, pág. 34
[6] Comte-Sponville, A. Uma educação filosófica, pág. 357
[7] Chauí, M. Convite à filosofia, pág. 255
[8] Gleiser, M. A difícil condição humana
[9] Popper, coleção Os pensadores, pág. 128
[10] Alves, R. O que é religião, pág. 64
[11] Carneiro Leão, E. Aprendendo a pensar, vol. 1, pág. 5
[12] Alves, R. O que é religião, pág. 49
[13] termo criado pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman
[14] Popper, coleção Os pensadores , pág. 122
[15] Oliva, A. Filosofia da ciência, pág. 8
[16] Russell, B. A filosofia entre a religião e a ciência
[17] Oliva, A. filosofia da ciência, pág. 6
[18] Guitton, J. Deus e ciência, pág. 70
[19] ibidem, pág. 85
[20] Fonseca, L. B. artigo “Consciência quântica”, pág. 1
http://www.laerciofonseca.com/docs/01-09-2005/A_Consciencia_Quantica.doc
[21] Rousseau, J.J. Do contrato social – Livro primeiro, capítulo I

Nenhum comentário: