quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Retorno aos gregos
Alcina Magalhães

O povo grego é o povo filosófico por excelência.
Werner Jaeger[1]






“Uma distância de milênios” nos separa de Tales de Mileto, o “principiador” grego do fenômeno de pensamento. Por que seu nome ainda hoje é pronunciado – assim como todos os outros pensadores originários – por nossos lábios sedentos de modernidade? Que papel eles desempenharam em seu tempo para em pleno século XXI a eles retornarmos sedentos de conhecimento? Como saciar a sede com a água da sabedoria originária grega? O remetimento à Grécia arcaica é uma necessidade que se impõe a nossa “modernidade líquida”[2] com a urgência dos problemas atuais. Observar o céu e cair em um buraco na terra talvez seja a solução para enxergarmos a pequenez do homem em sua “vontade de poder” interferir na natureza, não só dominá-la mas também destruí-la em aspectos essenciais; talvez seja a solução para libertar o “outro” que existe dentro de si, aquele que conhece o Bem e sabe que emular bons sentimentos, boas ações deveria ser próprio do ser humano, deveria ser a sua “essencialidade”; talvez seja a solução para acordar os homens que vivem “ignorantes da lei universal que tudo rege”[3]. Ou, usando as palavras de Carneiro Leão: “é a necessidade que temos de aprender a pensar com o que os gregos pensaram ”.

Para que aprender a pensar? Em nossa mentalidade individualista e impregnada de modernidade o pensar está em segundo plano, só tem valor a aquisição desenfreada de bens, a falta de amor pela natureza, a práxis de viver intensamente, pulando ansiosamente de e-mail em e-mail sem perceber o vazio que nos constitui, sem perceber os pré-conceitos, a convicção que fecha as portas para a experiência da verdade, o esquecimento do que é a “fraternidade primordial e originária entre os seres”[4]. Quem é amigo? Aquele que nos trata bem e não nos diz a verdade ou aquele que nos enfrenta e nos faz parar para pensar? Para que pensar? Pensar incomoda. Constatar a falta que nos constitui incomoda. Construir nossa subjetividade incomoda. Para que pensar? Podemos permanecer alegres e ocupados, porém, ignorantes, a caminho da morte.

Essa é a lei universal e necessária – idéia que o Ocidente herdou dos primeiros pensadores gregos – que rege a natureza quer queiramos ou não, quer pensemos a respeito ou não, quer aceitemos ou não, quer tenhamos projetos ou não, quer nos ocupemos freneticamente ou não. A todos a lei se aplica, indiscriminadamente, enquanto vivemos nossa cotidianidade, enquanto insistimos em não pensar no “hóspede sombrio”[5], enquanto nos divertimos com a festa constante e nos julgamos imortais. Para que aprender a pensar?

Quem realmente quiser descobrir deve penetrar nas agudas reflexões que os “pensadores originários” nos legaram, deve se deixar envolver pela poesia de Anaximandro[6]. São poucos os fragmentos legados – talvez seja bom serem poucos fragmentos – e quem neles se debruça tem a oportunidade de des-cobrir o que está velado, des-cobrir as sementes de pensamento ainda úmidas e em vias de germinar em solo apropriado, des-cobrir a linguagem inesperada que provoca o pensar, des-cobrir a “harmonia oculta” entre physis e anthropos que proporciona saúde e felicidade. Porém, não se pode esquecer que a caminhada é árdua, afinal mais de dois mil e quinhentos anos nos separam desses textos e nossos olhos e mentes impregnados de tecnologia terão a dificuldade inicial de adaptação que, tão logo vencida, dará origem ao retorno à “natureza originária” que permeou o espírito dos homens daquele tempo.

“Se não se espera, não se encontra o inesperado, sendo sem caminho de encontro nem vias de acesso.”[7] Deve-se caminhar pelos fragmentos com esta idéia em mente: é nos meandros dos textos que acordamos o não-pensado, que recuperamos a tragédia da poesia e mitologia vigente na época[8]. Deve-se caminhar pelos fragmentos com a certeza de encontrar o inesperado, com a certeza de encontrar a poesia que a racionalidade, a técnica, a ciência e o desaparecimento de algumas referências, cegou, obscureceu; deve-se caminhar pelos fragmentos como se estivéssemos tateando na “caverna” escura até nos encontrarmos na claridade do pensamento.

Para que aprender a pensar? Aprender a pensar é a atitude sábia para descobrir o que realmente importa na vida em seu conjunto, ou seja, nas ações, nos sentimentos e nas expressões; para determinar o que está e o que não está em nosso poder; para se comprometer com a realização daqueles bens que tornam a vida verdadeiramente humana, dotada de sentido, livre, autônoma, consciente da nossa posição no cosmos, voltada para a redução da violência e da intolerância nas relações sociais, voltada para a redescoberta dos valores morais[9].

Para que aprender a pensar? Para atingir a essência de Ser. Para despertar do sono profundo que assola o nosso viver contemporâneo. Para libertar as forças do espírito e florescer. Para se deixar acolher no “barulho do silêncio”, na passividade ativa, no ócio, que liberta as forças criativas aprisionadas em nosso interior. Para ser livre, pois “somos livres quando somos o que pensamos, sentimos e fazemos”[10]. Para aprender a pensar urge ler o mais famoso mestre da humanidade; para aprender a pensar urge ler a experiência grega de pensamento. Para aprender a pensar a filosofia, a literatura, as artes, a ciência e a matemática são ferramentas essenciais. “Só aprendendo a pensar com qualidade iremos realizar o vôo de Ícaro, a viagem às profundezas mais distantes dos oceanos previstas por Júlio Verne ou, até mesmo, a amar de forma profunda e infinita como nas obras de Shakespeare...”[11]








Bibliografia:

Carneiro Leão, E. – A história na filosofia grega (texto adotado no curso História da Filosofia Antiga I – UFRJ/IFCS 2008/1)
Quintão, D. – Seguindo o todo por toda terra – uma fenomenologia do arcaico nos gregos, RJ: Ed. Loyola, 2007
Os pensadores originários: Anaximandro, Parmênides, Heráclito, Bragança Paulista: EDUSF, 2005, 4ª. edição, introdução: Emmanuel Carneiro Leão, traduções: Emmanuel Carneiro Leão e Sérgio Wrublewski
Ciclo de palestras: “Vida, vício, virtude”, Academia Brasileira de Letras, 2008, palestras sobre: Sabedoria, O vazio do pensamento, Intolerância, Liberdade, org. Adauto Novaes









[1] Jaeger, W., Paidéia, pág. 12
[2] termo criado por Zygmunt Bauman, sociólogo polonês
[3] Pré-socráticos, coleção Os pensadores, pág. XXXI
[4] Quintão, D., Seguindo o todo por toda terra, pág. 265
[5] Dastur, F., A morte – ensaio sobre a finitude, RJ: Editora Bertrand Brasil Ltda, 2002, pág. 61
[6] Quintão, D., Seguindo o todo por toda terra, pág. 267
[7] Heráclito, fragmento 18, tradução: E. Carneiro Leão – Os pensadores originários – Anaximandro, Parmênides, Heráclito, pág. 63
[8] Os pensadores originários – Anaximandro, Parmênides, Heráclito, introdução de E. Carneiro Leão, pág. 10
[9] Perine, M. – Ciclo: Vida, vício, virtude – palestra sobre a Sabedoria
[10] Chauí, M. – Ciclo: Vida, vício, virtude – palestra sobre a Liberdade
[11] Machado, J.L.A., http://www.planetaeducacao.com.br/novo/artigo.asp?artigo=302 pesquisa: 14.07.2008

Um comentário:

Anônimo disse...

OI,
Deveras interessante seu monólogo,
um pouco longo talvez, mas, acima de tudo, nos faz refletir sobre a vida artificial que superficial que para muitos para a real, sobre o que podemos ou não dizer ao outro, sobre o que podemos ou não fazer ao outro.
Repito, muito bom.
Amo tudo que tem origem da Grécia antiga. O pensamento grego é e será sempre um referencial.
Ah vai uma dica, leia: O último Teorema de Fermat... escrito por um reporter q conta a história dos grandes matemáticos, principalmente, Aristóteles... origem Grécia !!!
Bjs
Regina