quinta-feira, 7 de agosto de 2008

A filosofia e a morte
Alcina Magalhães

“Nada fiz hoje.” Não viveste então? Pois essa é a ocupação mais fundamental e ilustre.
Montaigne[1]


A função da filosofia

A morte é um universal problema metafísico. Deter-me-ei em duas questões que considero importantes:

1. Como superar a contingência e a finitude da vida?
2. Como não temer a morte?


O ser-destinado-para-a-morte

Ser nascido. Sendo no mundo e não estando na origem do seu existir. A experiência humana ocorre no mundo do si-mesmo (pessoal), no mundo compartilhado (família, amigos, etc.) e no mundo ambiente (natureza e o social) e, uma vez precipitada, a vida segue seu fluxo para o destino irrevogável sem data marcada para ocorrer que interromperá a existência em algum estágio. Quer o indivíduo queira, quer não; quer aceite a idéia, quer não; quer esteja pronto, quer não; quer haja projetos inacabados, quer não. Um dia se adquire esse conhecimento e ele é colocado algures. Então, o ser vive em total alheamento dessa condição que lhe é imposta, como se fosse imortal; ocupa-se todo o tempo em sua cotidianidade e não se recorda desse saber absolutamente certo e inexorável. Viver, apenas viver: brincar, estudar, se alimentar, crescer, trabalhar, cuidar dos bens, amar, casar, ter filhos; a existência se condicionando por fatores externos: ocupações de toda natureza. E o tempo, implacavelmente, seguindo seu curso. Recorrendo a Walt Whitman:
“Nem um dia se passa ... nem um minuto ou segundo sem um parto;
Nem um dia se passa ... nem um minuto ou segundo sem um morto.” [2]
A morte nos espreita diariamente. Não podemos prever os riscos que pairam sobre nós a cada instante. Como o saber-se mortal se encontra escondido em um local de difícil acesso, não nos damos conta de todas as festas e divertimentos em que o “hóspede sombrio”[3] nos espiona. Imaginar a possibilidade só nos causaria horror; tremeríamos de medo se soubéssemos que poucos anos de vida nos restam. Então, permanecemos em nossa fuga inconsciente; pensar nela é sofrimento desnecessário, é antecipar aquilo que não sabemos quando irá acontecer. Um jovem que passa a noite com os amigos, se divertindo, bebendo, imaginaria que aquela seria sua última madrugada? imaginaria que, retornando à casa, dormiria ao volante, o carro iria de encontro a um poste, entraria em coma e morreria dois dias depois? Certamente que não! Seus pais, irmãos, parentes e amigos teriam imaginado a cena? Obviamente foram surpreendidos pelo ocorrido. Insistimos em não pensar no “hóspede sombrio”.
Até o momento em que alguma enfermidade ou a morte de alguém conhecido nos espante como um acontecimento “não natural” e nos advirta de nossa mortalidade. Não só choramos o morto mas também choramos por nós mesmos. E nos perguntamos: para que viver? qual o sentido da vida? Quando enfrentamos a morte do outro ele se torna presente para nós mais totalmente do que jamais o foi em vida até que o tempo cura as feridas e retornamos à nossa “caverna”, onde só distinguimos as sombras que queremos enxergar. Ocultamos no cotidiano a iminência da morte nossa e do outro; fugimos dela pelo divertimento, pelas atribulações que não nos dão tempo para refletir; vivemos a vida padecendo da ânsia do futuro e do tédio do presente, nos ocupamos todo o tempo para não pensar ou nos refugiamos nas lembranças boas do passado; não nos apossamos do nosso tempo – um fragmento de Clarice Lispector vem à lembrança: “quero capturar o presente que pela sua própria natureza me é interdito: o presente me foge” [4] –; deixamos que o presente em seu contínuo movimento flua e nos escape, ocupados que estamos em preencher nosso pensamento com o mundo exterior, inconscientes que estamos de que o tempo que perdemos jamais será recuperado. Queremos morrer ocupados? Conseguimos apenas não viver do jeito que gostaríamos, até que o sentimento de que não somos o que devemos ou queremos ser se instale e a angústia de nós se aposse.
Este é o recado que a angústia nos dá. Experimenta-se o sentimento de não ser o que se é. Algo em nossa vida está errado, não tomamos as rédeas de nosso viver, não nos tornamos responsáveis por nós mesmos, vivemos em função do trabalho ou do amor ou do outro ou dos bens materiais ou do corpo e não nos conscientizamos de que devemos ser o fundamento de nós mesmos, de que devemos assumir de fato nosso próprio existir, de que devemos usar nossa liberdade com o objetivo de um autêntico poder-ser quem somos. “Cuidar de nós mesmos, pôr-nos a nós mesmos em questão nascem justamente de uma superação da individualidade que se eleva ao nível da universalidade, representada pelo lógos” [5] que nos é comum.
Existe diferença entre viver e ser? Sêneca, no século I de nossa era, nos diz que “os ocupados não vivem a verdadeira vida, deixam-se existir” [6]. Deixam-se levar em seu viver cotidiano, repleto de atribulações, até que a visita insidiosa da morte os leve. A angústia é o momento de individuação, de questionamento, de reconsiderar o passado com o objetivo de renascer para a renovação da vida segundo a nossa escolha. A angústia nos salva de nós mesmos. É o total desconhecimento de quem somos, do que queremos da vida que nos leva a protelar as ações que se fazem necessárias para as mudanças que teremos que provocar e é então que a salvação se nos apresenta com o sentimento ambíguo de angústia.
O que fazer agora? Não sabemos que rumo tomar. É o instante em que temos de ser honestos com nós mesmos. Sêneca considera a filosofia como o único conhecimento válido para a vida, cuja finalidade é o aperfeiçoamento moral do homem: tornar-se mais generoso, mais corajoso, mais justo: “podemos discutir com Sócrates, encontrar a paz com Epicuro” [7]. Vamos então seguir os passos de Sêneca e saber o que a filosofia nos diz a respeito desse enfrentamento da angústia.


A filosofia


A filosofia é a inclinação natural para o conhecimento, é o desejo de decifrar os mistérios da natureza, é a tarefa infinita advinda da ignorância permanente do espírito humano porque há mais pontos obscuros no horizonte do que a nossa mente supõe, levando-nos a recordar a “metáfora da montanha”: o mistério cresce à medida que nos afastamos do horizonte que é a própria filosofia. O objetivo do filosofar é levar o indivíduo ao pensamento crítico de si e do mundo e adquirir consciência de si como sujeito e objeto de conhecimento. É um aprendizado que se renova diariamente e que ocorre durante toda a vida. Citando Plutarco que escreveu no início do século II d.C.: “Sócrates foi a primeiro a mostrar que, em todos os tempos e em todos os lugares, em tudo o que nos chega e em tudo o que fazemos, a vida cotidiana dá a possibilidade de filosofar” [8] (grifo meu). E Sêneca em carta a Lucílio diz “o que é instruir-se na filosofia por ações e enfrentar situações reais: é ver de que força de espírito é capaz um homem iniciado nela diante da morte, da dor, da aproximação de uma, da pressão da outra” [9] (grifo meu).


Em que sentido filosofar ajuda o indivíduo a enfrentar a angústia e o temor da morte? O que se deve aprender com a filosofia em meio ao caos da vida moderna, ao consumismo exacerbado e a todas as tarefas urgentes que nos aguardam diariamente?

Pensar por si mesmo. “Pois pensar e ser é o mesmo” [10], diz Parmênides. Ou recorrendo a Descartes: “se eu deixasse de pensar, deixaria ao mesmo tempo de ser ou de existir” [11]. Refletir com o uso da razão pura, sem se deixar levar pelas emoções; pensar e se escutar. Esse deve ser o objeto principal da preocupação e dos cuidados do ser humano em seu existir diário em meio às tarefas que lhe são concernentes nesse seu viver cotidiano; filosofia como escolha de vida, maneira de comportar-se. É isto que o indivíduo faz? Não. Ele não fundamenta sua vida na obtenção do conhecimento que lhe é imprescindível ao existir: conhecimento de si mesmo, dos fundamentos da moral e do determinismo da natureza. Ele ocupa em demasia seu espírito com a realidade exterior, ele não se permite concentração e reflexão sobre si mesmo. Enfrentar a mortalidade que nos é inerente é olhar a morte de frente, é pensar na morte, é aceitar incluir na vida o luto e a alegria, o riso e as lágrimas; é saber e se sentir mortal, é se relacionar com o “próprio poder-não-mais-ser-no-mundo” [12]; é saber que não temos como evitar o encontro com a morte e que este é o fundamento da experiência que o ser humano tem de si mesmo. É esse pensar a morte que desperta a autoconsciência e a mantém em permanente vigília, com a compreensão e aceitação do próprio destino, se libertando dos temores e domando a morte nesta “repetição” que é a filosofia, se abrindo autenticamente para essa possibilidade extrema que é a morte, permanecendo em pensamento junto dela. Esse meditar sobre a morte, dela se “avizinhar” [13], como Montaigne diz, manifesta apenas a vontade de “domá-la”, de assegurar sobre ela certo domínio, tirando-lhe o caráter de pura possibilidade, se conscientizando de que ela faz parte da condição humana e de que a “humanidade não alcança a consciência de si mesma a não ser através do enfrentamento da morte”. [14]
Para filosofar, a alma é o instrumento que se utiliza. Filosofar é libertar a alma através da compreensão e aceitação da realidade com todas as suas dores e sofrimentos. É o espírito aprendendo a se livrar da aparência, da vaidade e do mundo exterior; é o espírito que não protela, criando um verdadeiro divisor de águas entre o passado e o presente que realiza, tecendo a tapeçaria que irá compor com a nova forma de se relacionar com o seu ser, com a sua essência, ensejando o “movimento de retorno [a si] mesmo, de ‘entrada em [si] mesmo’ como dizia Santo Agostinho” [15], atentando para os valores morais que realmente importam na vida, para a posse efetiva de si mesmo, para o destino irrevogável que o aguarda. O que é morrer? É separar a alma do corpo. Vemos aí que há uma identidade entre a morte e a filosofia: ambas resultam no destacar a alma do corpo.
Como diz Sócrates, uma das possibilidades é a morte consistir em não se ter mais consciência: “como um sono em que o adormecido nada vê nem sonha” [16]. Não experienciamos nossa morte, no sentido de que quando deixamos de ter consciência estamos mortos. Nas palavras de Montaigne: “Para começar a despojá-la da vantagem maior de que dispõe contra nós, tomemos por caminho inverso ao habitual. Tiremos dela o que tem de estranho; pratiquemo-la, habituemo-nos a ela, não pensemos em outra coisa; tenhamo-la a todo instante presente em nosso pensamento e sob todas as suas formas” [17]. Nada há a temer, então, “a morte nada é para nós” [18] como nos ensina Epicuro. “De onde vem o temor da morte? [...] Em verdade, os homens temem a morte porque imaginam que o não-ser se seguirá a ela” [19] (negrito meu). Schopenhauer contra-argumenta: “então teriam de temer o não-ser anterior ao nascimento” [20]. Na realidade, o que tememos é o aniquilamento do corpo e não poder satisfazer nossa “Vontade de vida” que está intimamente relacionada ao corpo, aos prazeres, ao mundo objetivo. Deveríamos, então, direcionar nossa “Vontade de vida” para o espírito e objetivar permanecer vivos na memória das pessoas que amamos que, por sua vez, por nos terem amado, manterão acesa a lembrança de quem fomos para as gerações seguintes. Assim possibilitaremos a imortalidade tão sonhada enquanto vivermos na lembrança delas. Como? Através do afeto que distribuirmos em vida, através do comportamento generoso, bom, corajoso, justo, pelo respeito à dignidade humana. Acaso, alguém supõe que Marcel Proust esteja morto? Certamente que não. Apesar de aquele indivíduo não mais estar presente entre nós, ele viverá eternamente na memória de todos aqueles que o leram e o amaram, assim como de todos aqueles que o lerão e amarão no futuro. O mesmo acontece com os milhares de seres desconhecidos que permanecem na lembrança de seus entes queridos por gerações e gerações.
“A filosofia é a tomada de consciência da condição humana, que é a mortalidade. E é assim que Sêneca interpreta o célebre oráculo de Delfos: ‘conhece-te a ti mesmo’. Conhecer a si mesmo significa tomar consciência de sua mortalidade e de seus limites. Dessa forma, a filosofia se apresenta como uma arte da vida solidária a uma arte de morrer.[...] A filosofia terá, como uma de suas principais funções, afastar o homem do medo da morte.” [21]. É a filosofia contribuindo para o homem ter domínio de si mesmo e, conseqüentemente, tornar-se um ser humano melhor, como cidadão, pai, profissional, amigo, amante, ou seja, em todos os seus papéis a cumprir.
Na ficção pode-se criar um mundo em que a Morte se apaixone, dê tréguas ao ser humano, e a partir daquele momento mortes não mais ocorram. Sonho da imortalidade se realizando. Felicidade inominável quando se percebe que ninguém mais morre. Vamos parar um pouquinho e imaginar esse mundo idealizado: o maior terror da humanidade se desmaterializa no ar, se esfumaça. Viver sem a sombra insidiosa da morte pairando sobre nós é o paraíso até que o fenômeno mostre a sua cara e tenhamos que enfrentar as conseqüências boas e ruins advindas da situação. Como se trata de ficção, o criador, no momento oportuno, desfaz o mundo e tudo volta à normalidade. E ficamos felizes porque era tudo ficção. A finitude é o atributo essencial do ser-lançado-para-a-morte; assumir que somos “destinados a morrer” é o fundamento de um existir autêntico.
Nascer para uma vida verdadeira. Viver de acordo com a própria natureza. Cultivar a alma. Reconsiderar o passado que viveu, dele se apropriar, examiná-lo à vontade, a ele voltar de bom grado, não como fuga do presente que está em desacordo com o que se quer, e sim para submetê-lo às censuras da consciência, que nunca se engana. A responsabilidade do que somos é nossa e a morte é essencialmente minha e sua – teremos de enfrentá-la sozinhos. Platão pergunta a Sócrates: “Por que razão nos damos à filosofia?” E Sócrates responde: “Para aprender a bem viver, meu Platão” [22]. Este é o caminho que se pode escolher e trilhar para viver bem, afastar a angústia, aceitar a finitude e não temer a morte. A filosofia e a arte são nossas companheiras para tornar a vida suportável e enfrentar os sofrimentos e as dores porque sabemos que assim é a natureza humana e eles coexistem com as alegrias e os prazeres. Relaxar a urgência vital, reservar um tempo para um sorriso ou uma interrogação: observar e sondar a alma.











Bibliografia:
F. Dastur, A morte – ensaio sobre a finitude, RJ: Editora Bertrand Brasil, 2002, tradução de Maria Tereza Pontes
Platão, Fédon, tradução de Jorge Paleikat e João Cruz Costa, Coleção Os pensadores, SP: Abril Cultural, 1980.
Platão, A defesa de Sócrates, tradução de Jaime Bruna, Coleção Os pensadores, SP: Abril Cultural, 1980.
Platão, A apologia de Sócrates, tradução e apêndice de Maria Lacerda de Moura, coleção universidade, RJ: Ediouro

[1] P. Hadot, O que é a filosofia antiga?, SP: Edições Loyola, 2ª. Edição, pág. 13.
[2] W. Whitman, Folhas de Relva [Pensar no tempo], SP: Iluminuras, 2006, pág. 149.
[3] F. Dastur, A morte – ensaio sobre a finitude, RJ: Editora Bertrand Brasil Ltda, 2002, pág. 61
[4] C. Lispector, Água viva, RJ: Rocco, 1998, pág. 9.
[5] P. Hadot, O que é a filosofia antiga?, SP: Edições Loyola, 2ª. Edição, pág. 60.
[6] Sêneca, Sobre a brevidade da vida, SP: Nova Alexandria, 1993, pág. 35, nota 17.
[7]Ibid., pág. 46.
[8]P. Hadot, O que é a filosofia antiga?, SP: Edições Loyola, 2ª. Ed., 2004, pág. 68
[9] Sêneca, Sobre a brevidade da vida, SP: Ed. Nova Alexandria, 1993, pág. 18.
[10] D. Marcondes, Textos básicos de filosofia, RJ: Jorge Zahar Editor, 2005, 4ª. Edição, pág.13.
[11] R. Descartes, Meditações, Coleção Os Pensadores; SP: Abril Cultural, 1980, pág. 94.
[12] Z. Loparic, Heidegger, RJ: Jorge Zahar Editor, 2004, coleção: Filosofia passo-a-passo, pág. 49
[13] F. Dastur, A morte – ensaio sobre a finitude, RJ: Ed. Bertrand Brasil, 2002, pág. 38, nota 39.
[14] Ibid., pág. 13.
[15] M. Merleau-Ponty, O filósofo e sua sombra, Coleção Os Pensadores; SP: Abril Cultural, 1980, pág. 242.
[16]Platão, A defesa de Sócrates, Coleção Os Pensadores: volume dedicado a Sócrates; SP: Abril Cultural, 1980, pág. 26.
[17] M. Montaigne, Ensaios I, Coleção Os Pensadores; SP: Abril Cultural, 1980, pág. 46.
[18] Epicuro, Antologia de textos, Coleção os Pensadores; SP: Abril Cultural, 1980, pág. 13.
[19] A. Schopenhauer, Metafísica do amor, metafísica da morte, SP: Martins Fontes, 2000, prefácio de Jair Barboza, pág. XV.
[20]Ibid., pág. XVI.

[21] Sêneca, Sobre a brevidade da vida, SP: Ed. Nova Alexandria, 1993, pág. 18
[22] Platão, Apologia de Sócrates-Apêndice, texto: Sócrates corrompe a mocidade, coleção universidade, RJ: Ediouro,

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