quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Os modos de possibilidades de realização do ser em sua relação com a literatura
Alcina Magalhães


O cotidiano nos impede o acesso à verdade. Verdade que se nos torna acessível através da arte. A literatura, em todas as suas formas, nos permite manter um relacionamento peculiar com os livros que nos leva ao caminho da verdade. Entretanto, na maioria dos casos, a relação não ultrapassa a função de objeto que o livro representa para nós. São dois objetos que se unem durante um intervalo de tempo por razões as mais diversas e que, cumprido o ritual, se afastam e retornam para seus respectivos mundos: o livro para a estante e o ser humano para a cotidianidade que lhe concerne com todas as tarefas que se atribuiu em sua visão de mundo e de vida que realiza.
Existem aqueles seres que nem se relacionam com os livros, e várias podem ser as causas, porém, não pretendo me deter nelas. O ser apenas vive a sua cotidianidade em paz, repetindo automaticamente as fórmulas herdadas, aceitando o conhecimento adquirido com suas ilusões, equívocos e preconceitos. Está bem instalado na anestesia de seus afazeres diários, acomodou-se nesse estado, não lê nada e mantém vivas as razões para não ler; espontânea e naturalmente o ser se mantém em sua inércia. Essa experiência de negação da realização de se tornar ledor está inserida em seu ser sendo não-ledor e gerando todas as conseqüências da escolha que não faz. O ser enraizado nos conhecimentos obtidos na infância sem razão alguma para duvidar do que quer que seja segue seu caminho para a morte. O ser em sua “vida líquida” que escorre por entre os dias.
O ser que lê apenas em função da obrigação de natureza escolar ou profissional não pode se furtar àquela forma de se relacionar que caracteriza tais leituras e posso incluí-lo no mesmo grupo dos que não lêem porque o papel que a literatura poderia exercer em suas vidas não tem solo fértil para germinação. É a leitura estéril que não fertiliza o ser para os questionamentos próprios da vida, leitura que não cumpre a função de levar o ser à essência das coisas, à essência de seu ser-si-mesmo, que deve ser o objeto principal de preocupação e disposição enquanto ser-no-mundo.
Por outro lado, os seres que lêem apenas com o intuito de matar o tédio, ocupar o tempo ocioso, se distrair, para depois retornar para a rotina de preocupações cotidianas, também podem ser incluídos no mesmo grupo dos anteriores, porque não se preocupam com o conteúdo do que lêem, baseiam suas leituras em “lista dos mais vendidos”, em indicações de amigos; não percebem que poderiam estar utilizando esse tempo em livros enriquecedores que os levariam à reflexão, ao questionamento de suas escolhas de vida e, nesse questionar enquanto sujeito e objeto de conhecimento, descobrir o papel principal que lhes cabe na descoberta de um modo de ser autêntico.
É a riqueza do relacionamento do ser com a literatura que me interessa pois é o que engendra o acesso à verdade. A literatura, em todas as suas formas, é um dos caminhos para que o ser humano se desenvolva tornando transparentes as suas falhas e nelas se questionando. A literatura é uma das formas de provocar a inquietação no ser e conscientizá-lo para a vida. É a literatura remetendo o ser para a máxima socrática ‘Conhece-te a ti mesmo’. É a literatura levando o ser à busca de algo; uma busca que nem sempre se sabe onde começa e menos ainda onde termina – quando finda? certamente com a morte –; uma busca não deliberada pois o ser ainda não apreendeu o que lhe falta. A percepção do vazio, da falta, às vezes ocorre ao acaso: é uma palavra que fica vibrando, clamando por atenção, engendrando outras que se unem, se fortalecem e abrem o caminho a seguir; em outros casos, é uma experiência vivida por um ser ficcional que não sai da lembrança, que obriga o existente a parar e pensar naquela determinada situação, daí advindo o seu próprio processo de questionamento, seu momento de individuação, tornando possível o primeiro passo em direção à consciência de si. O confronto do ser real, existente, com a vivência do ser ficcional pode levar a uma tomada de consciência da liberdade de escolha do que quer ser na vida prática, cotidiana. É a oportunidade de rever seus conceitos, atentar para os valores que realmente importam, observar suas virtudes e seus vícios. É o ser ficcional, com toda a vida e realidade que não tem em sua faticidade mas que existe em nosso imaginário, mostrando as possibilidades de ser real que ainda não nos haviam ocorrido.
A literatura é um dos meios de sair da submersão na rotina diária, tomar consciência do que quer e definir seu projeto de ser. A literatura é uma das formas de se chegar à verdade do ser, àquela verdade que vem de seu interior, e que é o caminho para o sentido de seu existir no tempo que lhe é destinado enquanto situado no mundo, àquela verdade que o leva à vida autêntica que deveria viver. É a linguagem em sua força originária e criadora não se limitando apenas ao que é dito mas, e principalmente, ao que não é dito, ao que está subentendido. É o pensamento fundamentando o ser em seu projeto de possibilidades que estão ao alcance e que apenas a posse efetiva, a liberdade da escolha de possuir ou não possuir realiza.
A experiência de ser leitor é individual, solitária e silenciosa, e é esse experimentar solitário, individual e silencioso que remete o ser para algum lugar em seu interior. É o momento da escuta; é o momento de a voz da consciência clamar por ouvidos que ouçam o si-mesmo clamando por seus caminhos de realização; é o momento que engendra o discurso da consciência e que o ser em seu momento silencioso capta a voz e inicia seu processo de ouvir e refletir sobre o que ouviu. É o ser ouvindo o clamor da própria consciência clamando por si-mesmo e sendo aclamado a ser-si-mesmo; é o ser se conscientizando da existência de seus modos de ser-si-mesmo a partir de seu próprio si-mesmo e atingindo o estágio de realizar essas possibilidades em vez de protelar como sempre faz. É escolhendo a escolha de ser-si-mesmo que engendra a possibilidade por si mesma, o seu próprio poder-ser, sabendo quem é, o que quer, que faz o que é necessário e por que faz, criando um divisor de águas entre o presente que realiza e o passado e futuro que deseja.
É através da linguagem que o ser investiga o que precisa ser investigado, elabora suas próprias idéias, possibilitando que pensamento e linguagem concorram para o discernimento e para a ação de acordo com as exigências de sua alma, de sua consciência. É através da linguagem que se chega à essência das coisas; é pela linguagem que o ser se abre a si mesmo, ao outro e ao mundo. É o diálogo mudo, silencioso, repleto de signos, estabelecido pelo ser com sua consciência que o remete ao relacionamento com o outro, levando-o a uma compreensão de si mesmo, do outro e do mundo em que está inserido, tornando-o acessível ao ser-si-mesmo-do-outro, iluminando-o em seu ser-si-mesmo-com-o-outro, clareando as regiões de sombra, de ocultamento, proporcionando o caminho, o modo de ir à essência do outro, e não aos usos possíveis que se pode fazer do outro, não-negligenciando o autêntico modo-de-ser-do-outro, não se limitando às aparências e mantendo as zonas de obscuridade veladas pelo formalismo relacional, e sim proporcionando uma existência autêntica em que com-partilha a existência com o outro, em que se mostra ao outro como realmente é, em que é um ser-com-o-outro con-vivendo o mesmo mundo, o mesmo tempo, o mesmo espaço.
Alguns seres fazem a escolha deliberada de se manterem no conforto do não-questionar, do não se interrogar para não terem que ouvir o que não querem ouvir; escolha deliberada de não fazer nenhum esforço. O ser vivendo na banalidade do cotidiano mantém-se em segurança, escolhe a não-escolha do clamor da consciência e impossibilita a escuta, não dá ouvidos a si-mesmo. É o ser preso em suas próprias amarras, arraigado em seus preconceitos, que acredita ter o conhecimento necessário de si e da vida e que se se permitisse questionar esse conhecimento concluiria que, em verdade, nada sabe de nada; é o ser que não se concede o conhecimento de sua interioridade, que vive em função do mundo exterior, do trabalho, do cônjuge, dos filhos, da casa, dos bens materiais, da satisfação dos prazeres e ignora os verdadeiros valores da vida. Até que a angústia venha instá-los a iniciar o processo de individuação. Angústia que nasce por não viver a vida que deveria estar vivendo ou pela proximidade da morte que o remete ao futuro, ao não-ser; é a angústia dele se apossando, desestruturando sua subjetividade que estava velada pela mediania do cotidiano. Foge do questionamento e do pensamento na morte se apoiando no excesso de tarefas que se impõe, no ouvido surdo, no não-querer ter consciência. Às vezes, o ser está dentro desse processo de angústia, que nada mais é que a afirmação de um anseio de ser o que se é, e não sabe; é a oportunidade para que a literatura adequada lhe caia em mãos e o faça perceber a situação que está vivendo mesmo que ainda em um estágio de grande turvação, sem clareza de nada, e o leve à busca de ajuda no esclarecimento da vivência, à busca do entendimento mesmo da angústia, quer o esforço se mantenha e o empurre para a cura, quer não.
Quando o ser está em um processo de questionamento deliberado, em um contínuo interrogar sobre qualquer que seja a questão, o caminho, a direção a seguir é mais clara. O processo de questionamento, de interrogação, uma vez iniciado, leva o ser a um contínuo questionar-se, a um contínuo interrogar-se, a uma atenção constante para a voz que clama por ele, pois sabe que está sendo clamado a viver em conformidade com o seu próprio ser, está sendo clamado a construir-se em função de sua singularidade, está sendo clamado a criar a si mesmo, a ser fundamento de si mesmo. Reconhece a linguagem e o pensamento como veículos necessários e deles faz uso com mais intensidade. O tempo urge e o ser não esquece que o processo está fadado ao fracasso com a finitude de seu ser, o que torna mais fortes as razões para não protelar.
O acesso à verdade de seu ser, o conhecimento de si e do que quer realizar nesse seu processo de estar-no-mundo que lhe foi imposto é o maior bem a que se pode aspirar. O incentivo à leitura de qualidade é uma necessidade que se impõe por si mesma e o compromisso com a ampliação da parcela pensante da sociedade é tarefa de todos aqueles que aprenderam a pensar. O esforço inicial para tornar-se ledor, em alguns seres, demanda um tempo maior, porém, o relacionamento com os bons autores, sejam clássicos ou não, uma vez iniciado, se faz num contínuo que guia o ser todo o tempo nesse aprimoramento e que o leva a transitar pelos vários estágios de relacionamento com a leitura, avançando cada vez mais em suas escolhas, à medida que toma consciência da responsabilidade de seus atos para consigo mesmo, para com o outro e para com o próprio mundo em que vive.



Bibliografia:

Ser e Tempo, Heidegger, M., RJ: Editora Vozes, 2005, 15ª. Edição, tradução: Márcia Sá Cavalcante Schuback
Heidegger & Ser e Tempo, Nunes, B., RJ: Jorge Zahar Editor, 2ª. Edição, coleção: Filosofia passo-a-passo
Heidegger, M., Coleção “Os pensadores”, SP: Abril Cultural, 1979

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