sábado, 24 de setembro de 2011

Cadernos de Laura 3

A festa continua


É apenas um dia de festa como tantos outros e a noiva sorri o tempo todo para mostrar a todos a sua felicidade. Exterior apenas! Falsa felicidade porque sabe que não será feliz; como acreditar que aquele homem possua poderes que façam com que ela saia do poço em que mergulha de tempos em tempos? Por que depender do outro para usufruir as migalhas de alegrias que nos cabem? Como viver como a irmã e tantos outros que vivem ancorados em certezas que se esvaem num piscar de olhos? Aquele objeto de desejo tão sonhado é fugaz, assim como outros sonhos e desejos que nascem com o mesmo destino: se esvaírem tão logo realizados. Viver é isto: ser lançado no mundo e trilhar um caminho que não se sabe aonde leva.
Pode-se objetar: por que não se deixar ir, sem se preocupar com o fato de que a viagem é apenas de ida e que o fim é sempre o mesmo, não importa as nuances diferentes? A noiva responderia que seguir o rebanho é não tomar as rédeas do seu viver e que o mergulho no nada a fortalece; afinal quando retorna tem sempre a imagem do que a espera e não o elemento surpresa daquele que se abandona ao fluxo da vida sem pensar no que o aguarda ou que se sustenta em alguma muleta.
A noiva quer a liberdade de ser quem é, do jeito que é, e de realizar seu ser nas escolhas que faz porque quer e não porque o outro deseja - seu próprio eu é o referencial. Quem segue o rebanho não é livre, ilude-se até ao momento em que é confrontado no mais íntimo de seu ser e ou sucumbe por medo ou mais se apega à muleta. Ela apreendeu o absurdo da existência, a contingência de ser, sabe que apenas a ela cabe dar sentido ao que não tem sentido; e assim fazer tudo valer a pena. Exatamente porque se é livre e se está consciente de não ser uma "besta humana".


photo: Munique, 28.07.2010.

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