terça-feira, 23 de agosto de 2011

Cadernos de laura II

photo: Van Gogh, Neue Pinacoteca, Munique, 01.08.2010.

A dor é sempre insuportável. Nesses momentos sentimos o desespero do que significa sofrer; não sabemos o que devemos fazer para dar fim ao sofrimento. E esta é a questão que realmente importa: não sofrer. Da qual não podemos fugir porque o sofrimento vem acoplado ao pacote da vida: não há como viver e não sofrer. Sofremos o tempo todo - por nós, pelo outro, pouco, muito, não importa. Mas a memória é curta e quando a dor passa ela será esquecida rapidamente. Bon pour nous. Talvez aí esteja a resposta: a dor sempre passa; às vezes dói por muito tempo, mas é raro pois no mais das vezes ela se vai logo e ficamos no esquecimento. Até seu retorno.
O órgão doente pulsa o tempo todo como que para avisar: aqui estou eu! não se esqueça de mim! estou doente e preciso que você cuide de mim. Não se sabe o que fazer porque neste estado se quer apenas sair de si, não sentir, não sofrer a dor; nada ajuda porque a consciência da dor, do órgão que dói é mais forte que tudo e mais ainda permanecemos em nós mesmos: sofrendo.
Talvez a solução seja exatamente  sair de si. Mas como? A ocupação cotidiana é aquele bom antídoto para a angústia da morte sobre a qual Heidegger tanto falou. Nem isso conseguimos quando a dor nos atravessa, nada nos ocupa, e só nos resta nela permanecer até ao fim.
A pior dor é a psicológica, afinal, a dor física em algum momento passa, quando ingerimos  o analgésico adequado e ele faz o efeito - ou a morfina; não a dor que nem a morfina resolve porque essa é igual à psicológica num certo aspecto. Creio que o problema da dor psicológica é exatamente não se saber se passa ou não, e se passa, quando isso ocorre. Além do fato de que nós podemos intensificá-la de alguma forma, como quando se está sozinho e se alimenta as carências tornando a dor maior do que é, exacerbando-a pelo puro prazer de sofrer, pura autocomiseração. Para nada!


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